Paredes

Imagem da Web Autor desconhecido

Imagem da Web
Autor desconhecido

Paredes

Juntam-se as pedras
uma a uma se reúnem
num monte indistinto.

Fabrica-se a argamassa,
com cuidado se misturam
os elementos conhecidos.

Horizontalmente se organiza a construção,
em gestos experientes ou descobertos,
uma pedra untada da cola preparada,
uma outra sobreposta
ao mesmo tratamento submetida.

Juntam-se as mágoas,
traições e desilusões
amontoadas com o tempo.

Fabrica-se o desgosto
misturado com a amargura
das palavras por dizer.

Verticalmente se ergue o edifício
em gestos repetidos,
numa tentativa desesperada
de proteger-se
das consequências das ações
que outros tomaram por si próprios.

Se a parede pode proteger
das chuvas e dos ventos,
esqueceu o pedreiro
que são necessárias janelas
para pode ver o Sol.

Se o muro pode evitar
novas dores de chegar,
esqueceu o humano
que as esperança é indispensável
para continuar a viver.

Dulce Morais

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Gotas de Terra

Arte: Rejeena Niaz

Arte: Rejeena Niaz

Gotas de Terra

Quanto tempo passou
entre o Céu e a Terra?
Quanta água correu
entre as gotas e as nuvens?
Ninguém sabe contar
o que escorre na clepsidra,
na irregularidade do viver,
na aritmia do saber.
Mas na constância do sentir,
resta a certeza de receber,
sem nada dar ou trocar,
apenas sabendo cantar.
Na música das palavras,
nas notas de cada verso,
ecoa a amizade
nos corações que nos preenchem.
E resta ainda a compor
e a gravar na estela,
o cantico ao Eterno
à luz do sol ou da vela.

Dulce Morais

A todos aqueles e aquelas que ignoraram o tempo e o espaço na constância da presença recebida como um tesouro.

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Curvas

Arte: Eleatta Diver

Arte: Eleatta Diver

Curvas

Nasci agora
ou será repetição?
Talvez ilusão

No mar afundei
sonhos outrora puros.
Barcos de papel

Voltou a onda
devolver a esperança
no sal crescida

No rosto corre
o silêncio da maré
num sopro d’alma

Já não sei quem sou.
A areia transformou
o que pensei ser

A ti entrego
os destinos possíveis
jamais escolhidos

Estendo a mão
sobre a rocha sentada.
Futuro sonho

Dulce Morais

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O Caminho e a Lição

Arte: Laura Moore

Arte: Laura Moore

O Caminho e a Lição

Minh’alma tinha pressa de entender a renda da vida em toda sua profundidade e ângulos… Sentia necessidade de trazer à tona o que havia escapado ou fugido de mim.
Há quatro meses escutei o canto que move todo o universo e desde então, preparei-me… Para essa grande viagem escolhi uma minúscula bagagem, o artigo mais volumoso? Desejo de aprimoramento espiritual!
E assim, armada apenas de mim mesma, olhei a estrada que se estendia à minha frente. Do destino, pouco sabia ainda, mas era por ali – assim me o dizia a seta das direcções. De entre tantas que me apontava, foi difícil escolher uma apenas. Talvez seja por isso que estão lá. Para que cada viajante pare para pensar para onde quer ir. E de forma que, quando escolha, seja mesmo para aí que queira ir.
E com incerteza na bagagem e fé no coração, lá segui. Olhei ainda o meu velho carro, que, desta vez ficou para trás. Muitas foram as viagens juntos. Mas esta terá que ser diferente. Por isso, serei apenas eu e o alcatrão.
Com o vento a refrescar-me a pele, segui sem pestanejar. Não sabia quanto tempo demoraria a viagem, mas sabia que chegaria a tempo.
Por vezes, alguém me oferecia boleia. Aceitava algumas. Até à próxima cidade. Para recomeçar na madrugada seguinte. Alguns condutores, percebia após duas palavras, queriam eles próprios boleia. A eles, agradecia, mas declinava a oferta. Esta era uma viagem só minha, e para mim.
Na última madrugada, acordei mais cedo que o habitual e comecei logo a caminhada. Em pouco tempo, cheguei. Sem saber, dormira já na fronteira do meu destino.
Despertei com um vento suave. Uma brisa tocou os meus ouvidos como um sussurro a dizer: “Está na hora de acordar desta ilusão em que te encontras!” Não tive medo, pois outrora ouvi aquela voz suave que trazia paz, e sedenta por resposta perguntei:

– Eu não vivo uma ilusão?! – confesso que já não me conhecia, sabia que algo estava errado mas tinha medo de descobrir o problema.

– Levanta, e segue o teu caminho, não te preocupes pois estarei contigo e responderei às suas duvidas.

Foi então que percebi que antes de chegar ao destino desejado, teria que viajar pelos meus pensamentos relembrando o que já tinha sido esquecido… Lembrei-me da minha força. Não da força física, mas da força de vontade que tinha aprendido; viver sem medo e sempre seguir a razão com o sentimento nas mãos. Lembrei-me que não importa o quanto o meu redor está torto. Não devo entortar-me para entender, ou falar como alguns falavam e agiam, porque o segredo não é apenas guardar e esconder os pensamentos, sentimentos e conhecimentos, mas compartilhar com sabedoria, tendo sempre a certeza que devo ser leal com o meu Eu interior para que o meu exterior resplandeça.

Passei pelos momentos que me fizeram chorar e esconder o meu querer e com isso tinha-me perdido. Tentava levantar-me e, por ser pequena e inexperiente, tropeçava, pois havia esquecido dos meus conhecimentos, que me foram ensinados com tanto carinho, para nunca desistir apenas por ter passado por algo ruim…

Foi então que prossegui e descobri que o destino era o mesmo. Entretanto eu já não era a mesma pois tinha renascido das cinzas e estava tingida pela cor do fogo que pensava ter-me consumido. Resplandecente como um pássaro e forte como uma leão.

Tinha esquecido como se conta o tempo. Já não recordava como se contam as distâncias. Nada do que eu sabia ao inicio da minha viagem era evidente. O regresso fez-se sem que eu o planeasse. Se ignorava quanto tempo tinha durado esta expedição aos confins de mim, sabia que não tinha encontrado o que procurava. Porque – agora compreendia – o que eu desejava não existia.

Dos tesouros recolhidos durante a minha viagem, a nenhum me apego mas todos conservo. São flores que enfeitam minh’alma. São cores que pintam a vida. São céus azuis e nuvens de algodão que me levam em viagem sem deslocação.

Fui aos confins de mim e regressei, como aquele Veneziano dos tempos antigos que tanto perdeu durante o seu percurso, mas tanto recebeu em troca.

E hoje, aqui sentada neste topo de mim, observo o que tentei ser e acolho o que sou. Dizem ser coragem que de se saber real e incontornável. Não sei o que seja a coragem… Só sei o que sou e aprendi que o essencial é Viver. Com uma maiúscula e sem contorno.

Claudiane Ferreira – Isa Lisboa – Kizy Lee – Dulce Morais

Conto originalmente publicado no Tubo de Ensaio  – Laboratório das Artes, aqui.
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Papoilas

Por Dulce Morais

Por Dulce Morais

Papoilas

Vi papoilas ao longe, daquelas que nos preenchem o olhar de magia e o coração de alegria.
Eram amigas e companheiros que sabiam ver além do horizonte. Eram anjos que acolhiam o sol como pétalas oferecidas à luz.

Ilha sensível
Sabor a alvorada
Amável sentir

Calor em versos
Lidos em sintonia
Assim é ela
Única e bela

Saberei eu dizer
Uma palavra que seja
Sem sair da verdade
E com sinceridade
Tocar a alma pura
Elevada na amizade

Com o olhar puro
Repleto de tanto sentir
Irradia na alma
Sensível carícia

Delícia no sorriso
Amabilidade a cada instante
Nem cansaria ao escalar
Kilimanjaro ou Everest
Assim é a energia pura

Memória para sempre
Encaixada na vida
Num sopro voou
Aqui sempre ficará

Dulce Morais

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A minha viagem

Arte: Marsha Heiken

A minha viagem

Vou cair. Estive preso lá no topo durante tanto tempo e agora vou cair ao solo e tornar-me outro, desfazer-me e perder-me.

Não me recordo do tempo em que nasci. Terei caído junto a outros como eu para me aglomerar no manto branco que pinta a montanha que foi o meu lar durante tanto tempo. Após o que me pareceu uma eternidade, derreti… sim! Esse terrível destino que nos é reservado quando o astro diurno projeta em nós o calor dos seus raios. Senti-me despedaçado, derrubado. Como se nunca mais voltasse a ser o que sou.

Fui aspirado. Evaporado através do espaço até me juntar novamente a outros como eu e mais uma vez reunir-me. E mais uma vez cair. E mais uma vez solidificar-me.

Agora caio ao solo e sei que vou perder-me. Sou o inverno. Sou o branco. Sou o frio. Sou a tinta. Sou a água. Sou o floco. Único e jamais repetido. Doce e jamais acariciado. Outros virão, mas nenhum será como eu. Outros cairão, mas nenhum terá o meu passado. Continuarão o ciclo frágil deste inverno que nos pertence, até que um dia o mundo não nos queira mais. Até que o calor vença e sejamos apenas água e nunca mais algodão frio que enfeita o inverno.

Dulce Morais

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