Harmonia suspensa

Arte: Sascalia

Arte: Sascalia

Harmonia suspensa

Se o vestido envergado com tanta simplicidade não tivesse flores multicolores impressas, talvez o olhar não tivesse sido atraído até à pequena figura magra e frágil que por ali passava. Mas as flores eram belas sobre o tecido cor do céu de verão e o olhar subiu até ao rosto de porcelana da delicada menina, para se atrasar no olhar, atento e vivo, que escrutinava o seu ambiente como quem quer gravar na memória cada pormenor de uma paisagem que jamais poderá ver de novo. Observava e sorria com o brilho especial da inocência de quem ainda procura o seu caminho na vida. Parecia flutuar num halo luminoso carregado de magia.

Era um raio do astro solar que tinha conseguido abrir caminho entre as nuvens brancas e aquecer a pele dos humanos que pareciam, até ali, inconsoláveis. Havia no olhar da pequena uma pergunta por pronunciar, uma resposta suspensa no tempo à questão que nunca se tinha pousado. E nos lábios pairava um abraço por dar, um sentimento que deveria expressar-se mas calava-se.

E o observador, sem que lhe tenha sido possível lutar, deixava-se levar pela maré daquele azul e branco, transportado até ao coração dos seus pensamentos íntimos. E via. E sentia. E sabia. Ou talvez tudo não passasse de um sonho, de uma impressão deixada por aquele olhar tão intenso numa pessoa tão pequenina.

O instante foi fugitivo e já escapava a quem o vivia. Havia outras preocupações, outras ocupações. Daquele momento de perfeita harmonia em que era possível tocar do dedo a magia do silêncio, já nada sobrava além de uma vaga lembrança.

Será necessário voltar a encontrar aquele olhar, aquele sorriso, aquele brilho no rosto frágil e puro, para recordar que, por ser efêmera, a felicidade do equilíbrio entre o que sentimos, o que sabemos e o que desejamos, conserva a magia do impalpável que precisa do impulso da pureza de uma criança para se manter viva.

Dulce Morais

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Viagem ou não

Imagem: Morguefile

Imagem: Morguefile

Viagem ou não

Não sei se a partida ou a chegada fazem parte da viagem. Podemos nós dizer que a viagem já começou quando ainda não fizemos o primeiro passo, ou será que apenas começa quando o movimento nos leva. E quando já terminámos o percurso, será que a viagem já cessou ou poderá ela ainda continuar além do destino, além da meta atingida?

Nunca me preocupei muito com os inícios nem com os fins. O que me interessa são as paisagens que percorro, as árvores que acaricio, os horizontes que atinjo, os passos que dou, as pedras que retiro do meu caminho, aquelas que aceito no meu sapato, as montanhas que subo e os vales que me acolhem. Não há nada nas nossas mãos que possa levar-se. Só a alma pode ver completamente, além das imagens, o que faz o mundo, o que constrói um ser, o que fabrica uma vida.

Não é, por isso, uma nova viagem que se inicia. É a continuação do caminho. É uma curva que se anuncia. E não é prosa nem verso que aqui deito. São apenas palavras… ao vento lançadas e pelas nuvens recolhidas.

Dulce Morais

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Descolagem

Arte: Joao Marques

Arte: João Marques

Descolagem

Na ponta das asas
Desenhou-se um voo.
Na nuvem que passava
Escreveu-se um silêncio.

Era um sonho que viajava
Procurando ainda o seu rumo.
Era um céu que se pintava
Numa tela ainda branca.

No ar resta o perfume
Da borboleta viajante.
Na mão fica a cor
Do singelo artista errante.

Dulce Morais

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Conversa

Arte: Carlos Saramago

Arte: Carlos Saramago

Conversa

Toca o paladar.
Sente a pétala voar.
Recebe o sopro do vento.
Oferece o olhar atento.

Diz que o sentimento,
Que preenche cada momento,
Invade o corpo e a mente
E se saboreia… calmamente

E o lápis desenha
Arte pura, arte estranha,
Aquela que se não descreve
Mas se vive num instante breve.

Que és, loucura?
Sou tu na verdade mais pura.
Que me dizes, verdade?
Digo-te o peso da saudade.

Dulce Morais

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Amores ao Crepúsculo – com Isa Lisboa e Claudiane Ferreira

Arte: Romeo Koitmäe

Arte: Romeo Koitmäe

Amores ao Crepúsculo
Com Isa Lisboa e Claudiane Ferreira

O sol abarca a planície,
como que a beijando,
com lábios sôfregos,
não sei se de água,
se de libertar mais calor.

A planície estremece,
enrosca, enrubesce,
quem está por dentro? E por fora?
Não sei se de água, calor,
Se de libertar mais amor.

Do rubor nasce,
num efémero relâmpago,
o leito sobre montes e oceanos.
Nas cores belas e distantes
acolhe os amantes.

Isa Lisboa

Claudiane Ferreira

Dulce Morais

Este poema foi originalmente publicado aqui,
no Tubo de Ensaio – Laboratório das Artes

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Desembainhado – com Isa Lisboa

Arte: A. Van Zile

Arte: A. Van Zile

Desembainhado com Isa Lisboa

De todos os meus dogmas
Me queres expurgar
Mas qual infeliz
Recuso-me a aceitar
Que para um apenas
Há em mim lugar
Cego, não queres ver
Que sempre hei-de escapar

Da insistência nascem as armas
Que contra ti se poderão voltar.
Fecha os olhos e vê
O que só pode sentir-se;
Não há lama no caminho
Iniciado por convicção.
O rio bebido com sede
Seca as lágrimas amargas.

Sei-o,
Nunca conheceste ninguém
Que ousasse
Seguir por caminho desconhecido.
Tu que sempre caminhaste
Sobre tuas certezas
Que te dizem as minhas dúvidas?

Ao duelo se entrega,
No fundo se afoga,
Questões sem resposta,
Nuvens sem um Céu;
Sem o preto, branco não pode haver.
Na incerteza consumida
A fuga enfim se concretiza.

por Isa Lisboa e Dulce Morais

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