A Dúvida – Capítulo V

A Dúvida
Capítulo V

Meu amor,
Espero que ainda me permitas chamar-te assim por escrito, uma vez que já não nos chamamos desta maneira frente a frente há tanto tempo!
Acompanhei-te ontem ao aeroporto para a despedida antes desta tua enésima viagem para o trabalho. Já sinto saudades tuas, mas é verdade que mesmo quando não viajas estás pouco tempo em casa. Mas, ainda assim, dormimos sempre na mesma cama e essa é a maior diferença em relação aos momentos em que estás no estrangeiro.
A tua viagem foi longa. Espero que tenhas chegado bem. Costumas ligar só para dizer que chegaste ao hotel, mas ainda não o fizeste. Ou porque ainda não chegaste, ou porque não queres falar comigo.
Eu sei que temos brigado imenso durante os últimos meses. Na realidade, durante o último ano. Mas a discussão de ontem, logo antes de tu partires por tanto tempo, caiu mesmo mal. Não vou poder dizer-te que, mesmo que não nos entendamos há meses, eu continuo a amar-te imenso! Que, se sou assim, é porque sinto a tua falta. Porque já não me lembro há quanto tempo estivemos juntos, em paz um com o outro, sem brigar, sem discutir, sem guardar nada no coração e na garganta para evitar mais uma conversa sem rumo que não chegue a conclusão nenhuma. Há quanto tempo Mário? Tu sabes dizer? Eu já não sei!
Lembro-me desses nossos anos de namoro, quando me apaixonei por ti, não como uma adolescente, mas como uma mulher já com alguma maturidade, que já tinha vivido algumas experiências, boas e más, que já sabia o que podia esperar do homem da sua vida.
Apaixonei-me como nunca me tinha acontecido antes. Apaixonei-me e até hoje esse amor dura, mesmo que a paixão já não seja a mesma. Desvaneceu com os anos, foi substituída por um carinho tenro, pela compreensão, pela partilha.
Os nossos momentos íntimos também mudaram; passaram da paixão que consome, a momentos de puro sexo, porque já sabíamos que nos amávamos, porque nos conhecíamos tão bem que não era já necessário andar à procura do que daria prazer ao outro. Encontrávamos logo a carícia que sabíamos ir despertar os sentidos, e era só prazer de dar, de receber….
Onde estão esses momentos meu amor? Eram tão diferentes da mecânica que temos praticado desde alguns meses atrás, sem paixão, sem espírito, sem vontade, quase sem olharmos um para o outro, tocando-nos apenas para o que parece ser uma obrigação, não partilhando nada que não seja absolutamente necessário ao exercício do faz de conta. Isso não é amor! Isso nem é sexo! Não é nada! É só contacto físico sem nenhum entusiasmo!
Será que ainda me amas? Preciso de saber a resposta a esta pergunta, porque sei que ainda te amo!
Apesar de tudo, pesa-me a tua ausência, a tua mudança nestes últimos meses.
Quero dizer-te que te amo apesar de saber o que se passa. Eu não sou cega e por isso acabei por ter a certeza de que existe algo externo que está a fazer apodrecer o nosso amor! Eu sei que ao ler estas linhas estás a negar com a cabeça, a pensar que estou a ficar louca, mas eu bem sei do que falo. Um homem não muda tanto como tu mudaste no último ano sem que exista uma razão. E essa razão está noutra mulher que te virou a cabeça, que te afasta de mim cada vez mais.
Eu sei que tiveste uma conversa séria com o Sebastião há seis meses. Sei também que foste tu que o proibiste de vir aqui a casa sem que a Dulce o acompanhasse. Sei disso tudo, não porque ele mo dissesse, mas porque foi a própria Dulce que me contou. Diz-me: eras obrigado a agredi-lo? Ela ficou tão satisfeita com o resultado da vossa conversa! Vejo-o no olhar dela nas raras vezes que a encontro desde esse momento. Eu sei que vocês falavam muito, e provavelmente que ainda o fazem, mas tu não tinhas o direito de exigir isso do Sebastião! Ele era a única pessoa que tentava compreender a minha situação, que me consolava na solidão! Não como se poderia pensar que um homem consolasse uma mulher só, mas como um verdadeiro amigo! Agora a Dulce tem o seu cachorrinho de volta a casa. Ele nem se atreve a contactar-me com medo que a mulher o deixe por outro, ou que ela fique ainda mais tempo no trabalho para o evitar. Ele ama-a mais do que ela merece!
E tu Mário? E nós Mário? Ainda há amor nos dois sentidos ou vamos acabar por viver no silêncio, sem carinho, sabendo eu que andas com outra, tentando perdoar o que sei que nunca vou conseguir perdoar?
Mário, seja quem for, essa tua secretária, outra mulher qualquer que tenhas encontrado numa dessas tuas viagens, deixa-a e volta para mim! Recomecemos tudo de novo! Voltemos a apaixonar-nos!
Quando regressares dessa viagem, tira uns dias de férias e vamos algures só nós dois! Deixa o trabalho em casa. Essa empresa viveu sem ti durante muitos anos, pode certamente sobreviver alguns dias sem te telefonar, te enviar papeis para assinar ou organizar reuniões para tu assistires. Tira uns dias, nem que seja só um fim-de-semana prolongado, de sexta a segunda, e vamos a um sítio onde possamos ficar tranquilos, descansar, conversar, amarmo-nos!
Volta para mim Mário! Eu ainda te amo! Volta….
Tua “Bela”

Dulce Morais

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

2 respostas a A Dúvida – Capítulo V

  1. as-nunes diz:

    Coisas da vida, do amor, da vida a dois, dos casais que o querem ser para sempre, uns que o conseguem outros que ficam pelo caminho, num dos muitos apeadeiros que se encontram ao longo da linha.Depois de se ler esta bela carta de amor fica-se na expectativa.Será que o Mário anda "distraído" de tal maneira que vai descer na próxima estação?Bj

  2. Será que Mário irá responder?agora quero ver é a resposta!!! bolas… estava a gostar da intriga dos recibos de hotel…mas agora vamos ver como fica esse casamento 😉

Obrigada pelo vosso comentário!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s