A Dúvida – Capítulo IX

A Dúvida
Capítulo IX

Ele entra no apartamento e olha para ela. Ela devolve o olhar sem dizer uma palavra. Nem Boa noite! nem Como estás? As palavras são inúteis. Aproximam-se um do outro lentamente com o brilho do desejo no olhar. Tocam-se. Ele pousa a mão na anca dela, ela passa a mão pela cara mal barbeada dele. Um beijo. Prolongado, apaixonado, torna-se impaciente à medida que as línguas se misturam. Os gestos desordenados desabotoam as roupas, retiradas à pressa, atiradas pelo ar. Ele, sem a largar, avança alguns passos e encosta-a à parede, levantando-a do chão, suportando o peso dela, enquanto as suas mãos se aventuram por lugares que não devem ser mostrados, unicamente adivinhados num filme de grande audiência.

O meu telemóvel vibra dentro da minha mala. Não posso ver quem é, mas adivinho. O Sebastião está preocupado. Quer saber se eu estou bem. Não posso responder, claro! Foi minha a ideia virmos ao cinema mas não estava à espera que o Mário escolhesse um filme… nem sei como qualificar o que estou ver. Romântico? Não me parece apropriado. Erótico? Talvez, mas não é assim que eu o descreveria. É uma sucessão de casais que se fazem e se desfazem, que se amam e se desamam, que se encontram e se desencontram. Pois, claro, esta cena está bonita. Bem filmada, bem interpretada, mas não passa disso: uma cena de cinema. Se isto existe na vida, já não existe na minha.

Desde que ele regressou temos falado muito. Ao menos isso: já não há silêncios. Tudo foi dito. O que deve ser dito num casal, mas também o que não deve ser. Ele fala de divórcio. Diz que não sabe já se temos um futuro juntos. Duvida da minha fidelidade, duvida de me amar, duvida de mim. Eu também duvido. Amo-o, ou assim o penso, mas estes últimos meses destruíram a confiança que existia entre nós. Também lho disse.

Decidimos tentar, decidimos dar-nos um tempo para nos reencontrar. Na próxima sexta-feira iremos a Roma, cidade da nossa lua-de-mel. Mas já não espero nada! Já nem quero conservá-lo a todo o custo. A mágoa que ele criou destruiu algo em mim. Talvez o amor que sentia por ele, talvez a minha confiança no nosso futuro comum. Mas o que penso é que destruiu o que nos unia. Nenhum de nós confia no outro, nenhum de nós confia nos seus sentimentos.

É curioso que tenha sido necessário todo este percurso para eu começar a ver, a observar o que o meu marido é profundamente. Ou melhor, no que ele se tornou, porque ele não era assim! Agora vejo em que direção vai o olhar dele. É bastante significativo o facto que seu olhar percorra sempre a rua onde caminhamos, a sala do restaurante onde jantamos, o cinema onde entramos. Ele observa toda a gente. Especialmente as outras mulheres. Como o faria um homem livre. E o mais estranho é que esse olhar magoa, mas já nem sei porquê. Amor próprio, talvez. Já não é aquele medo de o perder. É só o sentimento de ter falhado. Sim, esse olhar que escrutina, que observa, que adivinha, que admira as outras mulheres, é a prova de que falhei e é isso que dói. Não sei bem como tudo isto começou, mas falhei em certo ponto e o mais frustrante é que não sei bem onde. Mas agora, vendo este filme que não presta exceto por algumas cenas, já não sei se estou no meu lugar, sentada ao lado dele, mão na mão, fazendo de conta de que estou a gostar.

Quero que essa viagem a dois comece. Quero saber como estamos quando nos reencontramos. Quero ver em que direção irá o olhar dele quando passearmos pela cidade. Quero saber o que sinto por ele, realmente. Se é, como ele escreveu, o hábito, ou se é amor. Quero saber o que ele sente por mim. Quero saber onde vou. Não sei se terei respostas a todas estas perguntas, mas preciso de tentar. Temos de tentar. Não podemos ficar assim…

Dulce Morais

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Uma resposta a A Dúvida – Capítulo IX

  1. Agora, o primeiro e o segundo parágrafo dão a entender que a sua irmã, Dulce, tá de caso com o Sebastião. É isso mesmo? Depois, Isabel começou a pensar no Mário, sempre de um modo belamente escrito… Vamos ver, ver vamos.

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