O Clã do Comboio Segundo Dulce Morais – Tarde

 
Aconteceu-me recentemente ter de viajar até Lisboa num comboio da tarde, por volta das dezasseis horas. Apanhei o comboio na mesma estação de todas as manhãs, na mesma linha. O comboio fez o mesmo percurso, atravessou as mesmas cidades, as mesmas aldeias, parou nas mesmas estações. No entanto, a paisagem que vi pela janela e os passageiros que me acompanhavam eram muito diferentes.
Estes últimos, iam sem pressa, descontraídos. Havia tantos bancos vazios que escolhiam com todo o cuidado o melhor lugar, segundo as preferências de cada um. Vários colocaram as bagagens nos bancos disponíveis sem se darem ao trabalho de utilizar as bagageiras e, de tarde, ninguém se queixou de assim ser.
Quanto à paisagem, a diferença com a manhã ainda era mais evidente. Nas aldeias havia animação, roupa a estender nas varandas, tratores nas vinhas, crianças nos centros desportivos jogavam ténis ou futebol. Perto de uma cidade onde o comboio para, viam-se senhoras, já com uma certa idade, a fazer exercício em aparelhos ao ar livre, aproveitando o calor do sol da tarde.
A Natureza tinha todas as caraterísticas da Primavera. O sol iluminava a linha do comboio criando um raio que quase cegava os passageiros. Um pássaro aproveitava o sol quente, empoleirado num fio elétrico, enquanto o seu companheiro voava, ou melhor, aproveitava o vento, batia ligeiramente as asas, mas não saía do sítio onde estava. Um voo estático que juntava à beleza do céu azul apenas entrecortado de algumas nuvens espalhadas e passageiras. Nos campos, as cores eram mais vivas, os caminhos campestres visíveis iluminados pela luz viva da tarde. As papoilas à beira da linha ferroviária acariciavam o olho com o seu vermelho vivo e intenso. O cheiro os eucaliptos, intensificado pelo calor da tarde, entrava na carruagem e deliciava o olfato. Cavalos andavam soltos e corriam nas pradarias como que imitando uma dança índia de agradecimento aos deuses da liberdade. Os rios corriam com mais luz e mais força para o mar. Uma  fonte, visível ao longe, parecia um santuário dedicado aos deuses da água.
Após mais de uma hora de percurso, o comboio entrou na zona da grande Lisboa e já tudo parecia exatamente como pela manhã. Não havia diferença notável. A poesia tinha terminado e tudo voltava ao normal. E a voz de Moya Brennan no meus ouvidos cantava que tudo poderia ter sido só um sonho.
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