Por causa dA Dívida – VIII

Por causa dA Dívida – VIII

– São de quê, Mário?
– São da Polícia Judiciária, Belinha. Não se preocupe. Eu estou a cuidar do assunto.
– Mas o que procuram estes senhores?
– Belinha, por favor, sente-se que eu explico. Houve uma queixa apresentada por um cliente do grupo e eu fui envolvido, tal como vários outros colegas. Estão a investigar cada um de nós, mas é só uma questão de respeitar os procedimentos. Não há evidências nem provas de que a queixa tenha qualquer fundamento.
– Muito bem querido. Você sabe o que faz, não sabe?
– Claro, Belinha. Não quer ir dar uma volta, tomar café com uma amiga, enquanto eu resolvo a situação com a Polícia?
– Oh meu queridinho! Você conhece-me tão bem. Sabe que eu não gosto de coisas desagradáveis. Claro que vou passear. Telefone-me quando tudo isto estiver terminado. Ah, e Máriozinho, peça a estes senhores que não deixam nada fora do lugar. Tenho imenso trabalho para explicar à empregada como gosto que as coisas fiquem.
– Claro, Belinha, vá descansada que eu trato de tudo.

Vai-te embora, maluca! Vai! Desanda daqui para que eu possa concentrar-me nestes gajos que andam a tentar encontrar algo para me entalar. Deixa-me cá pensar bem: o que tenho eu em casa que possa incriminar-me? Se bem me lembro, tudo o que diz respeito ao desfalque do dinheiro daquele cliente foi destruído. Não gravei as operações no computador do trabalho e ainda menos no de casa. Não, aqui não vão encontrar nada. Admito que tive medo quando os vi chegar em grupo, cheios de pretensão, certos de que eu estava feito. Agora vejo na cara deles que já começam a duvidar. É deixá-los procurar à vontade.

Só faltava o telefone a tocar agora. Deixa-me cá ir para o jardim para ninguém ouvir.
– Estou … Olá minha querida. Incomodas-te que eu ligue de volta? Estou bastante ocupado neste momento. … Ah, se é assim tão importante, falamos agora … Ah sim? Não sabia que tinham estado juntas … Hmm, compreendo. … Marlene, deixa-me explicar: eu tinha comprado o anel para te oferecer mas a doida da minha mulher, que tem sempre de meter o nariz onde não é chamada, encontrou-o e, claro, pensou logo que era para ela. Compreendes que eu não podia dizer nada. Tive de lho oferecer e comprar outro para ti … Não te zangues querida. Não podes levar isto assim tão a sério! … Não … Marlene, ouve-me por favor … escuta Marl…

Bom, que ela levou a mal não há dúvida. Porra, estas mulheres vão dar cabo da minha cabeça. E estes tipos que ainda não acabaram. Acho que preciso mesmo de férias. Não sei se a minha paciência aguenta com isto tudo.

A Andreia, precisava mesmo de a ver. Há tanto tempo. Tive saudades dela. Ela é doce e calma. Com ela, descanso. Nunca faz perguntas, cuida de mim, nunca pede nada. Ao menos com ela tenho um pouco de paz e … de outras coisas que ela conhece bem… também. Habitualmente aborrece-me estar com ela. Não tem muita conversa e acho que ainda é mais burra que a minha mulher. Por outro lado, hoje o que eu preciso é paz, silêncio e disto… sim, disto mesmo que ela está a fazer.

Agora que a Polícia suspeita de algo a meu respeito, não posso correr riscos. Tenho de encontrar uma maneira de os fazer acreditar que estamos sem dinheiro. Afinal, eles agora devem saber quanto gasta a Bela e quanto eu ganho e não é preciso uma licenciatura de contabilidade para compreender que eu deveria estar de rastos.

Bem pensado! Não só tapa os olhos à Polícia como me dá alguma margem para pagar algumas faturas que estavam à espera que o Sebastião fizesse a transferência para a conta em Singapura.

– Belinha, lamento, mas tive de vender um dos carros. Como o meu é indispensável para ir trabalhar, teve de ser o seu.
– Como se atreveu Mário? Como pode fazer uma tal coisa? E porque não me avisou, porque não pediu a minha autorização?
– Querida, o carro não era bem seu. De facto, fui eu que o paguei e ele estava registado no meu nome.
– Mas ele era MEU! MEU! ENTENDE?
– Mais uma vez, Belinha, lamento, mas tem de ser. Não podemos continuar desta maneira. A entrada de dinheiro que eu esperava ainda não chegou e temos faturas, muitas faturas, para pagar. Talvez se você se acalmasse um pouco nas despesas…
– ACALMAR? ACALMAR? Ouça bem, Mário: Não vou acalmar como disse. Vou continuar a vida que sempre tive. A vida que me prometeu quando casámos. ENTENDEU?

Dulce Morais

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