Escuridão – Capítulo I

Escuridão – Capítulo I

Virou-se novamente na cama, para o lado esquerdo, desta vez. Continuava sem conseguir dormir. Que horas seriam? Há quanto tempo tentava dormir sem qualquer sucesso? Decidiu acender a luz do candeeiro, encontrou os óculos às apalpadelas e conseguiu finalmente ver no despertador que passava das três da madrugada. Em vez de continuar a tentar dormir, pegou num livro começado há muito e decidiu sentar-se na cama para ler até que o sono ganhasse. Mas não conseguiu. Aquela simples atividade, ler, era algo que, em breve, já não iria conseguir fazer.

Como poderia ela dormir depois daquela notícia que caiu como uma bomba na sua vida? Então, decidiu, para tentar compreender e aceitar os factos, rever em memória o percurso que a trouxera àquele ponto. Fora há cinco anos a primeira vez que consultou o oftalmologista. Na escola, tinha sentido dificuldade em ler o que se escrevia no quadro, não conseguia distinguir quase nada ao longe e tinha cada vez mais dores de cabeça sem qualquer explicação. O médico fez todos os exames e testes necessários. Enviou-a para ser consultada por outro médico no hospital com o objetivo de investigar as razões de tal situação numa rapariga de apenas dezasseis anos. Três semanas mais tarde, os resultados chegaram: teria de usar óculos em razão de uma grave miopia. Estranhamente, esta doença tinha-se desenvolvido muito rapidamente no caso dela, o que era inabitual. No entanto, nada mais fora identificado. As dores de cabeça eram só uma consequência da má visão.

Teria terminado o problema se tudo se estabilizasse por ali, mas não foi o caso. Nos cinco anos seguintes continuou a ver cada vez menos, cada vez menos claramente. O médico continuou a receitar testes, novos óculos, com correção cada vez mais forte. E nesse dia, pelo fim da tarde, a notícia caíu-lhe em cima como se o próprio céu, como se o mundo, o seu mundo, estivesse a despedaçar-se. Sofria de uma doença rara para a qual só existe uma consequência: iria ficar cega. Dentro de pouco tempo, talvez seis meses, talvez um ano, já não iria conseguir ver o mundo, já não lhe seria possível ler, ver o rosto das pessoas que amava, admirar paisagens, estudar, viver sozinha. Iria precisar de ajuda, de reaprender cada gesto banal da vida para adaptar-se à escuridão.

Como poderia ela conseguir dormir depois de uma tal notícia? O seu namorado, adormecido a seu lado, nada sabia ainda, nem os seus pais que viviam perto. Não tinha conseguido falar a ninguém da notícia. Ainda não conseguira aceitar, ainda não queria acreditar na realidade da situação e falar a alguém, contar o que se passava, explicar as consequências, teria significado tornar tudo mais real, mais inevitável. Ainda não estava pronta para as perguntas, ainda não tinha força para evidenciar uma postura de coragem às pessoas que a rodeavam. Iria esperar um pouco, umas semanas, até conseguir dizê-lo. Ocorreu-lhe que talvez nunca fosse encontrar coragem para falar. Mas afastou a ideia rapidamente. Não queria começar a duvidar disso também.

Continua

Dulce Morais

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