Escuridão – Capítulo II

Escuridão – Capítulo II

As semanas passaram e o sono continuava ausente das suas noites. Mais consultas, mais análises, mais conversas com médicos que não se davam ao trabalho de utilizar um vocabulário inteligível para ela. Resolveu informar-se sobre a doença que lhe engolia a vista aos poucos. Queria saber. Consultou inúmeros livros na biblioteca. E leu. E soube. Talvez não soubesse tudo, mas sabia o suficiente para compreender o que estava a acontecer ao seu mundo.

Foi só então que decidiu falar aos seus familiares. Reunidos na sala de jantar, em casa dos pais, estavam todos presentes: o seu pai, a sua mãe, os dois irmãos, o namorado e a sua amiga de sempre. Na hora do café levantou-se e pediu a atenção de todos. Falou. Explicou. Chorou. Contou. O choque nos rostos dos presentes era evidente. Ninguém respondeu. Pareciam todos ter perdido a voz. O seu namorado levantou-se, deu dois passos muito lentos na sua direção e, ainda mais lentamente, abraçou-a. Ficaram ali abraçados um longo momento até que, finalmente, o seu pai fez a primeira pergunta: Quanto tempo? Ninguém sabia ao certo, mas ela deu a estimativa que o médico lhe tinha indicado. Nada mais foi dito naquele dia. Cada um voltou para sua casa. Os amigos e familiares, no entanto, não ficaram muito tempo silenciosos nem inativos. A partir do dia seguinte e durante duzentos e quarenta e três dias, cada um, ou quase, se dedicou a fazer-lhe ver o que ela não poderia ver mais tarde e para o resto da sua vida. Quase todos. Quase. O namorado, ao fim de quatro semanas, anunciou que, afinal, iria fazer aquele estágio na Inglaterra que tinha inicialmente recusado. Sendo um contrato de três anos, preferia separar-se. Seria difícil manter uma relação ativa e viva à distância, sobretudo porque em breve, ela não iria poder escrever-lhe ou utilizar um computador para comunicar com ele. Ela não recusou nem suplicou. Não disse que, se não pudesse escrever ou utilizar um computador, ainda poderia falar. Não tentou prendê-lo. Compreendia que ele não quisesse amarrar-se a uma pessoa que não poderia ver, que seria dependente.

Todos os outros se dedicaram a levá-la visitar e ver tudo o que poderia gravar na sua memória. O verde das paisagens, o azul do céu e do mar, as cores do arco-íris. Os seus pais viviam uma vida modesta. Havia dinheiro suficiente para o necessário e ainda para alguns prazeres, mas sempre prazeres simples. Nada de grandes viagens através do Mundo. No entanto, porque tinham consciência de que existiam centenas ou milhares de coisas que a filha nunca iria poder ver, decidiram fazer um empréstimo. O dinheiro serviu para viajar com ela. Foi assim que viu o Egipto e as suas pirâmides, Amsterdão e as maravilhosas pinturas de Van Gogh, o British Museum e os seus tesouros, Nova Iorque e a sua Estátua da Liberdade, a Islândia e as suas paisagens fantásticas, e ainda muitas outras coisas, mais belezas e mais cores. Tentou gravar tudo na sua memória, guardar para sempre as imagens de tudo o que via. Observava tudo com muita atenção para tentar nada esquecer. Sabia no entanto que a memória apaga aos poucos o que não considera importante. Teria de se lembrar de tudo com frequência, de rever as imagens de tudo o que não queria esquecer.

Após oito meses, e apesar de nada ter dito aos familiares e amigos, tornou-se evidente que já não valia a pena partir para uma nova viagem. Chegara o tempo de parar, de descansar e de preparar-se para o inevitável. A luz já não penetrava a sua retina de maneira regular. O véu da noite ensombrava com frequência a sua vida. Tinha vivido todos os meses passados a gravar imagens na sua memória para tentar guardar algo da beleza do mundo que iria deixar de ver e quase tinha esquecido que teria de preparar-se para a vida que a esperava. Tinha de aprender os gestos que lhe seriam necessários para adquirir alguma independência quando a escuridão ganhasse. E, assim, todos os dias que se seguiram foram de aprendizagem. E aprendeu sobretudo a contar. Contou os passos que separavam a sua cama da casa-de-banho. Contou quantos eram necessários para ir até à cozinha. Contou os palmos entre a cafeteira e o frigorífico, e quantos entre o fogão e a gaveta dos talheres.

Continua

Dulce Morais

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Uma resposta a Escuridão – Capítulo II

  1. Anonymous diz:

    Está bonito até agora.

Obrigada pelo vosso comentário!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s