Escuridão – Capítulo III

Escuridão – Capítulo III

A noite continuou a preencher a sua visão, deixando cada vez menos luz. A bengala-guia foi comprada, o pequeno apartamento apetrechado com os aparelhos que lhe iriam facilitar o quotidiano. As pontas dos dedos ainda não se tinham habituado às letras inventadas por Louis Braille, mas aprendiam aos poucos. Já encontrava as marcas gravadas nas moedas quando ia tomar café para deixar o troco em cima da mesa. Também já conseguia identificar o pacote de leite e distingui-lo do de sumo de laranja. Descobriu que, afinal, ainda podia ler. Claro, não era com os olhos, mas com os ouvidos. As gravações em CDs de obras literárias eram poucas e nem sempre encontrava disponíveis os textos que queria descobrir, mas a sua mãe, que tinha a particularidade de ter sido dotada de uma voz encantadora, dedicava os seus serões a gravar, num pequeno aparelho que adquirira para o propósito, os livros mais recentes que sabia que a filha iria gostar. Foi assim que a sua coleção de livros foi crescendo e que lia ainda mais do que no passado. É verdade que, quando podia ver, a leitura era uma atividade que exigia uma concentração dirigida exclusivamente para as páginas imprensas. Agora que ouvia livros, podia ao mesmo tempo aquecer a água para o chá ou pentear o cabelo, concertar as almofadas do sofá ou limpar a mesa.

Uma manhã, ao acordar, compreendeu que a cor tinha desaparecido da sua vida. O calor do sol que entrava pela janela aquecia o seu rosto mas ela não podia já distinguir as partículas de luz. Já estava preparada há muito para esse dia e não se assustou. Ficou só triste, e chorou. Não acusou a vida. Não acusou o destino. Nem a má sorte. Nem a doença. Chorou de saudades. Chorou da ausência da beleza das imagens que jamais poderia rever. E acalmou. Lembrou-se das viagens, do encanto das cores que guardaria na sua memória por relembrá-las com frequência para as manter vivas. E fez o seu filme privado, na sua mente, composto das maravilhas que vira nos meses anteriores. Voltou a dormir, cansada pelas emoções que tinha vivido, sem mesmo sair da cama. Quando acordou, não sabia que horas poderiam ser. Encontrou às apalpadelas o relógio especialmente concebido que lhe permitia ver as horas com o toque e descobriu que já passavam das onze da manhã. Lentamente iniciou a sua nova vida na escuridão.

continua

Dulce Morais

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