Escuridão – Capítulo IV

Escuridão – Capítulo IV

Os meses passaram. Passaram os anos. Ela já estava habituada a tudo o que lhe parecia impossível seis anos antes. Já não se perdia no seu próprio apartamento. Já conseguia deslocar-se na rua sem qualquer ajuda, mesmo em sítios que não conhecia. O segredo eram os outros sentidos. Apercebeu-se que a sua audição detectava mais informações do que pensara possível, que as suas mãos e a preciosa guia sentiam e viam o caminho e os seus perigos. Pensava muitas vezes que as pessoas que podem ver desperdiçam o dom de visão em coisas inúteis quando deveriam aproveitar esse presente para apreciar o mundo, para comunicar sentimentos de doçura, de ternura, como só o olhar pode.

E trabalhava. O mais curioso no seu trabalho é que ninguém acreditava que ela o poderia fazer até que viram os primeiros resultados. Nem ela tinha consciência que seria capaz de uma tal coisa, mas a sensação nas mãos era tão tranquilizadora, tão maravilhosa, que decidiu tentar a experiência. E deu resultado. A coisa ainda mais estranha era que, ela, a própria criadora dos objetos, não os podia ver. Era escultora. As suas pequenas estátuas vendiam-se facilmente. Porque não eram caras, mas também pela curiosidade dos amadores que queriam possuir uma estátua, um busto, uma flor, formada na argila por uma pessoa com a sua condição.

Tudo o que diziam dela, ela ouvia. Nunca lhe veio à ideia responder. Aceitava que as pessoas pensassem dessa maneira mas recusava-se categoricamente a deixar-se levar a aceitar condescendência e generosidade originada pela culpa. Tinha novos amigos, alguns que também não podiam admirar o Mundo, outros que desejavam sempre descrever o que ela não podia ver para que lhe fosse possível imaginar ou comparar com a lembrança de tudo o que vira no passado. O seu filme privado ainda estava vívido, fresco. Ela nunca se esquecia de rever tudo o que tinha amado ver. As lembranças, se bem que em menor quantidade, ainda ocupavam o olhar da sua memória.

Continua

Dulce Morais

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