Por causa dA Dívida – X

Por causa dA Dívida – X

À medida que caminho, que piso as pedras claras da calçada, sinto-me como elas. Frio e abandonado entre semelhantes, parte de um puzzle de que não conheço todo o desenho. E levo comigo…*

Espera aí, eu já vivi isto? Será? Não me lembro muito bem, mas tenho mesmo o sentimento de já ter vivido este preciso momento! Mas não pode ser. Claro que não! Nunca levei nada a Tribunal antes de hoje. Venho aqui trazer a declaração de rendimentos do ano passado a pedido do juiz que dirige o inquérito sobre o desfalque. Nunca tinha aqui posto os pés. Mas porque será que conheço os corredores deste Tribunal, porque conheço cada pedra desta calçada?

– Autor? Autor? O senhor autor está por aí?
Não, o senhor autor não está. Está só a autora! Ele fugiu cobardemente e deixou-me sozinha para tentar endireitar esta história…
– Ah, talvez me possa explicar por que razão ele me está a fazer viver coisas … como hei-de explicar… coisas que sinto que já vivi.
Não é ele que te escreve, seu pretensioso. Sou eu! Sou eu que te estou a fazer viver essas coisas. Achas que só um homem te poderia escrever?

Ai, caramba ainda por cima ela é suscetível…

– Claro que não penso isso autora! Compreendeu mal a minha intenção. É que pensei que seria lógico o autor escrever a personagem masculina e a autora escrever a personagem feminina.
Pois pensaste mal!
– Está bem, está bem, peço desculpa. Então se é a autora que me está a escrever, pode dizer-me porque razão sinto que já vivi este momento?
É porque já o viveste, noutra vida, noutra história.
– Não estou a perceber. Eu já fiz parte de outra história?
– Já, mas a não eras bem igual. Nessa outra história foste escrito pelo João e eras muito diferente. Honesto, fiel, amavas a tua mulher. Claro, isso não chegou para salvar o teu casamento, mas pelo menos, eras sincero!
– Ah ! Não estava à espera dessa!

– Belinha, acho que temos outro problema com os autores!
– Que foi agora, Marinho?
– Primeiro, acho que eles brigam um com o outro, ou pelo menos, que não se entendem sobre o que você e eu devemos fazer. Tive há pouco uma conversa com a Dulce, e ela não foi nada meiga com o João. Isto não pode ser bom para nós, Belinha, não pode ser nada bom!
– Marinho, porque falou com a Dulce e não com o João? Talvez a autora se zangasse porque você deveria ter falado com o autor.
– É isso o mais estranho querida: a autora escreve-me a mim e o autor escreve-a a si! Não faz sentido nenhum. A nossa história não tem pés nem cabeça!
– Cale-se Marinho! Eles ainda nos vão ouvir!

– Está bem, está bem! Falemos mais baixinho… O que mais me admirou na conversa que tive com a autora, é que ela também me disse que nós já fizemos parte de outra história. Pelos vistos, a outra história acabou mal, mas eu era honesto, fiel, amava-a muito, mas isso tudo acabou em separação.
– O Marinho não iria pedir o divórcio pois não?
– Claro que não querida! E você, já pensou nisso?
– Nunca querido! Eu amo demais a minha vida consigo para terminar.

Não posso, não posso, não posso! Devo resistir, não posso mesmo! Agora tenho mesmo de ter todo o cuidado. Não basta a PJ a investigar cada um dos meus movimentos financeiros, também devo agradar aos autores. Não posso, não posso, não posso! Bom, poder posso, só que ninguém deve saber!

– Joana, minha querida, como vais? … Bem, bem, sempre bem quando ouço a tua voz deliciosa. … Tens algo combinado para logo à tarde? … Perfeito! Queres passar pelo escritório às quatro? … Então até logo, docinho.

Para cada situação sem esperança, existe uma solução desesperada! – ou qualquer coisa assim. Tenho de tentar tudo para que o Mário e eu continuemos a viver a nossa história. Isto não pode terminar desta maneira. Quero fazer tudo para agradar aos autores, ou pelo menos ao autor! Estou tão grata por ser um homem a escrever-me! Ele fez-me perfeitinha, não podia ter sido melhor! Então vamos a isso :

– Autor? Sr. João? Está a ouvir-me?
Sim, estou aqui. O que me queres?
– É assim Sr. João: o Marinho ficou a trabalhar tarde hoje e eu aborreço-me aqui sozinha em casa. Então pensei que talvez o autor quisesse vir aqui … ter comigo … fazer-me companhia…

Dulce Morais
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* Excerço de “A Dúvida” – Capítulo XII

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3 respostas a Por causa dA Dívida – X

  1. Olá Maninha… com que então não consegui… e pior do que isso, a autora atira-me com a Belinha p'rós braços e a Maninha diz boa… as mulheres cobrem-se umas às outras!!! Não, o predicado não foi casual… Vais "pagarmezias" todas, ai vais, vais…

  2. Muito obrigada Ângela!

  3. Ângela diz:

    Boa, senhora autora! Agora vamos ver como se desenvencilha o autor que a tentou, mas não conseguiu, pôr em apuros! 😉

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