Romance d’Aujourd’hui – I – O Encontro

O Encontro

Vamos viajar através desta história. Não só no tempo que ela vai durar mas também no espaço. Se o título é em língua francesa, é porque os eventos que ela conta acontecem numa cidade francófona. Não, não é Paris, se bem que esta seja a cidade do romantismo e da sedução. É numa cidade mais pequena, mais íntima, que também tem muito charme. Situa-se à volta de um lago de proporções respeitáveis, cercada por montanhas no cume das quais a neve nunca derrete. As ruas da cidade histórica são estreitas e a calçada data do tempo em que o Reverendo Calvin fez dela a primeira cidade protestante, desafiando Roma e o Rei de França. Hoje em dia está atulhada de pequenos restaurantes e cafés da moda, frequentados pelo misto cultural que habita ali. Falam-se muitas línguas nas esplanadas, mas a principal é o francês. Estamos em Genebra.

Ela chama-se Christine. Não é muito alta, não é muito elegante, não se veste com roupas da última moda porque privilegia o conforto à aparência. Tem 42 anos, um rosto redondo, o olhar brilhante de inteligência e um ar de menina tímida. Mas parar a sua descrição aqui seria trair a essência da personagem. É bonita e atraente. O olhar é terno e atento. É interessante porque pode conversar sobre assuntos diversos sem se ridiculizar. Não se envergonha de ignorar certos factos e mostra sempre curiosidade por todo o tipo de informação que lhe permita acumular conhecimento. Mas essas características não se notam para quem a vir sentada naquela espanada, uma chávena de chá à sua frente, um livro nas mãos, dia após dia, durante duas horas ou mais, se o tempo estiver quente. Vem ali porque gosta do ambiente. Ouve os outros clientes conversarem, ri-se das piadas que dizem, sorri a quem lhe sorrir, mas pouco fala. Concentra-se na sua leitura e ali fica até que o sol se esconda e a clientela mude para se compor de pessoas mais jovens que começam por um café depois de jantar antes de irem passar a noite nas discotecas próximas.

Ele chama-se Patrick. À primeira vista não tem nada de particular mas, quem cruza o olhar dele fica invadido pelo verde da ternura, da malícia, e pela agudez com que observa tudo e todos. Também não é muito alto, usa o cabelo muito curto e aparenta uns 48 anos. Todos os dias, depois do trabalho, encontra-se ali com os amigos e colegas para um momento de descontração antes de ir para casa. Está sempre bem disposto, diz muitas piadas e ri às gargalhadas.

Há muito que notou a presença dela na mesa vizinha. Olha com frequência para o lado, à espera de encontrar o olhar dela. Quando isso acontece, trocam um sorriso antes de voltarem às suas ocupações do momento: ele aos amigos, ela ao livro. Todos os dias, ela continua a sentar-se na mesma mesa da esplanada, mesmo ao fim-de-semana. Nesses dias em que ele não vem, sente a falta dos risos, da boa disposição mas, sobretudo, do olhar verde pousado sobre ela de vez em quando. Ignora a razão desse sentimento de falta, até acha algo estranho sentir isso por uma pessoa com quem nunca falou. Apenas trocaram olhares e sorrisos, mas eram mais do que isso. Eram comunicação, eram uma carícia doce e discreta. Às segundas-feiras à tarde, quando o volta a ver, oferece-lhe sempre um sorriso mais largo, um olhar mais intenso, um momento mais longo de atenção, antes de prosseguir a sua leitura.

É ele que ousa o passo que permite quebrar a última barreira de timidez entre eles. Chega mais cedo que os colegas e, em vez de se sentar à sua mesa habitual, pede-lhe permissão de lhe fazer companhia. Ela aceita. Apresentam-se, trocam palavras banais, falam do livro que ela lê e do tempo que está a ficar mais fresco. Palavras de todos os dias, sem grande importância, mas que criam uma ligação entre eles. Já não são desconhecidos que se sorriem ao longe. São agora algo mais. Algo que ainda não está definido mas que se vai definir com o tempo.

Nos dias seguintes ele vem mais cedo e conversam durante algum tempo até que os amigos dele cheguem. Já falam deles próprios. Ela contou que nunca foi casada porque nunca se quis prender a um homem, porque teve medo da rotina. Ele também não, mas talvez se arrependa um pouco de não ter filhos, de não ter ninguém que o espera em casa quando volta do trabalho. Os dois tiveram relações duráveis, viveram com companheiros mas, por razões que não mencionam, estão agora livres. E falam de muito mais: da Humanidade, de política, de filosofia, de arte. De tudo o que lhes apetece. Não há nada que lhes escape. Falam da vida e da morte. Do que os homens e mulheres que povoam o Mundo fazem com o tempo que lhes é dado. Até que um dia falam das relações entre um homem e uma mulher. Do que faz que por vezes durem décadas e outras alguns dias apenas. E, um assunto puxando o outro, falam de relações intimas, de sexo. Descobrem que não há tabu entre eles. Todos os assuntos podem ser abordados.

Continua

Dulce Morais

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Uma resposta a Romance d’Aujourd’hui – I – O Encontro

  1. Anonymous diz:

    Eh lá, isto promete!!!

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