Romance d’Aujourd’hui – III – O Plano

O Plano

Tornou-se uma relação inabitual. Estão atraídos um pelo outro, mas não trocam palavras de amor que os namorados costumam dizer. Entre eles é muito diferente. Dizem e escrevem o que querem fazer um ao outro, o que desejam que o outro faça, em detalhes explícitos, em palavras urgentes escritas no telemóvel ou no teclado de um computador, antes de premir a tecla Enviar. Dizem tudo progressivamente. Não escrevem tudo desde o início. Vão se descobrindo mutuamente, lentamente, cuidadosamente. Nenhum dos dois se atreve a dizer logo tudo o que deseja com receio de assustar o outro. Mas um dos dois acaba sempre por saltar a barreira e tentar, por mensagens implícitas, por vezes, dizer algo de mais original de que gosta ou que quer tentar. Nesses casos, a reação do outro nunca é preconceituosa, nunca é chocada. É sempre um interesse, uma admiração. De facto, nem um, nem outro, imaginava que o interlocutor fosse tão correspondente, tivesse uma tal abertura de espírito. Admiram-se da capacidade do outro de se adaptar tão bem aos próprios desejos e fantasias. Nada foi esquecido durante as conversas: querem tocar-se, amar o corpo do outro, sentir o cheiro da excitação mútua, tocar o veludo provocado pelos arrepios de prazer. E falar, comunicar, saber do que gostam. Querem oferecer, dar o corpo em presente ao outro, sem medo, sem apreensão.

Encontram-se por vezes para um passeio à beira do Lago Léman. Caminham até à esplanada mais próxima do Jardim Botânico e sentam-se para um café ou uma bebida mais refrescante, dependendo da hora e do tempo. E continuam a conversar de tudo. Falam da atualidade, comentam um livro, trocam opiniões sobre outros transeuntes que cruzam, ou falam ainda deles próprios, das famílias respetivas, dos amigos. As conversas duram horas e nenhum parece aborrecer-se. E, claro, há sempre um momento em que se desviam de tudo isso para o falar do desejo mútuo. Inventam momentos a dois, contam ainda as experiências passadas, os parceiros que tiveram, o que fizeram, como o fizeram, onde o fizeram. A excitação, a ansiedade e o desejo leem-se nos olhos de ambos, mas nem um nem outro ainda tentou passar das palavras à ação.

Foi durante um desses passeios que, sentados num degrau de uma das escadas que leva ao viveiro dos cisnes, trocaram o primeiro beijo. Foi intenso e longo. As mãos beijaram tanto quanto os lábios. A intensidade daquele momento foi tal que Christine leu nos olhos de Patrick o desejo imenso e poderoso de a possuir.
– Eu também te desejo. É tão forte que poderia fazer amor contigo aqui, em público, à luz do dia. Mas acho que devemos ainda esperar um pouco. Quando acontecer, quero que seja na confiança total, quero que não haja qualquer obstáculo por causa de perguntas que teríamos, de não termos a certeza de que o outro irá gostar ou medo de magoar com gestos e palavras.
– Gosto de saber que me desejas tanto como eu te desejo. Acho a tua ideia de esperar excelente. É muito excitante. Por vezes, chego a duvidar de que um dia nos encontraremos para partilhar essa intimidade. Quando isso acontece, quase sempre recebo uma mensagem ou um telefonema teu a dizer o quanto me desejas, ou a contar o que gostarias de fazer comigo, e a dúvida desaparece. Quero-te mais do que posso explicar e penso que também é devido ao facto de esperarmos. Então esperemos. Passaremos a mais quando tu e eu estivermos prontos.

E assim fazem. Ela continua a partilhar tudo o que imagina, ele conta desejos que nunca disse a ninguém, que teriam provavelmente chocado a maioria das mulheres, mas ela não se assusta. Pelo contrário, fica ainda mais interessada, mais imaginativa, mais desejosa de tentar tudo quando podem imaginar juntos.

Continua

Dulce Morais

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