Por causa dA Dívida – XII

Por causa dA Dívida – XII

O leitor destas linhas perdoará certamente a utilização de meios que desafiam as leis da física e do bom senso para sair da situação impossível em que o meu co-autor me deixou. Tanto ele como eu já demos inúmeras provas de que o bom senso não nos é familiar. Quanto às leis da física, não houve outra alternativa, visto que, o que foi escrito, e sobretudo publicado, não se pode apagar.

O mar está perto e traz até ao casal deitado nas cadeiras longas do terraço do hotel o ruído das ondas que vêm banhar a areia branca e fina da praia. Lado a lado, o casal não parece muito unido. Ele segue com o olhar cada forma feminina que passa, levanta-se por vezes para murmurar algo ao ouvido de uma ou outra mais atraente, para voltar alguns minutos mais tarde e retomar o seu lugar ao lado da legítima. Ela parece contar os homens presentes. Observa-os ao longe e, sempre que um jovem, musculado e apolíneo, passa por perto, esforça-se por atrair a sua atenção assumindo poses mais provocativas umas que as outras.

O sol encobre-se de repente, como se uma nuvem tivesse aparecido do nada para esconder o astro. Todos olham para o céu mas o que vêem faz ecoar gritos de terror. Não é uma nuvem que encobre o sol, é uma mão gigante que desce do céu, vinda do nada, e se aproxima do solo. Todos na praia tentam encontrar abrigo dentro do hotel, incluindo Belinha e Mário. Correm, gritam, tentam fugir àquela mão enorme. A mão é mais rápida. Apanha primeiro Belinha e logo a seguir o seu marido. Apertados entre os dedos, elevam-se nos ares. Pouco depois, tudo se torna escuro para eles e desmaiam.

Acordam em sua casa. Todas as luzes estão apagadas. Mário, sem a certeza do que acaba de acontecer, levanta-se e dirige-se para o interruptor para acender a luz. Carrega no botão várias vezes mas sem qualquer consequência. Caminha até ao salão, tropeça na cómoda do corredor e tenta acender a luz ali. Mais uma vez, não tem sucesso. É noite e não têm luz. Saem para ver se é um corte geral, mas não parece. Vêem luz na rua e nas casas vizinhas.

Como nem um nem outro quer ficar no escuro, decidem sair para comer alguma coisa. Vestem-se à luz das velas encontradas numa gaveta da cozinha. Belinha não conseguiu maquilhar-se em casa e é no carro que tenta aplicar um pouco de batom.

– Marinho, o que acha que nos aconteceu?
– Tenho dúvidas… mas acho que sei…
– Então diga! Eu não compreendo nada: num momento estamos salvos, ricos, temos milhões. No momento seguinte estamos na nossa casa, sem luz e nada para comer no frigorífico.
– Belinha, acho que os nossos autores não gostaram do fim que demos à nossa história… acho que foi um deles que nos arrancou do nosso Paraíso para nos pôr de volta na história que está prevista para nós num daqueles malditos cadernos. De acordo com a mão que nos apanhou, diria que foi a Dulce que nos trouxe de volta.
– Marinho, mas isso é terrível! Ela não pode ter feito isso. Nós não lhe fizemos nada de mal… se fosse o João Paulo… ainda compreendia, mas a Dulce… que tem ela contra nós?
– Belinha, você não entende que a nossa história ainda não chegou ao fim! Ela tinha de escrever a continuação. E foi buscar-nos para poder escrever o capítulo dela.
– Aquela maldita! Inimiga das mulheres felizes e astutas, eu lhe digo! Deixe-me cá apanhá-la…
– Belinha, já chega! Não acha que temos problemas suficientes? Estamos a chegar ao clube. Vamos comer. Sentir-nos-emos melhor depois.

– Não pode ser, não pode ser, não pode ser. Tente outra vez!
– Não funcionou as quatro últimas vezes, não vai funcionar à quinta. O seu cartão de crédito está bloqueado.
– Maaaaariiiiiiinho!!!
– Calma Belinha, calma! Eu vou deixar um cheque pré-datado e resolvemos isso amanhã. Vamos para casa.
– Está bem, Marinho. Vamos para casa. Mas antes, fazemos uma paragem na Policia Judiciária.
– Na quê?
– Na Policia Judiciária!
– Para quê, Belinha?
– Deixe comigo que eu sei o que faço.

– Dulce, que convocatória é esta que eu recebi?
– Foi a Belinha que fez queixa de nós à Policia Judiciária.
– Mas isto nem parece oficial! A PJ nunca enviaria uma tal coisa.
– Ouve lá, JP. A PJ que nós criámos só existe nesta história. Daí, essa convocatória só é válida na história…
– Então e agora? O que é que eu faço disto?
– Sais da alhada JP, sais da alhada… e sozinho!

Dulce Morais

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