Matéria e Reflexo

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Matéria e Reflexo

Não é uma matéria prima palpável que utilizo no meu ofício. É um conjunto de estruturas incertas, maleável como a argila, rígido como o mármore, emprenhado de História (sim, com maiúscula), leve como o sopro de uma brisa primaveril, pesado como um céu carregado de nuvens grávidas de torrentes devastadoras.

Já deveria estar habituado a este sentimento de vazio que precede o ato de me despir entre as linhas da página branca, mas não estou. Sinto no fundo do que sou, ou do que deveria ser, o aperto na alma que tenta emergir do emaranhado de pensamentos que me avassala. E, como num relâmpago de lucidez, sei que não sou nada. Não estou vivo. Não estou morto. Estou preso entre o ser o que poderia ter sido e não alcanço o serei. Como um ectoplasma moldado nas margens de uma folha que pede – que suplica – o derrame da tinta de um instrumento tão simples como temido.

E a matéria prima, tão acessível e tão longínqua, tão apreensível e tão volátil, que fez passar a Humanidade das trevas à iluminação sem nunca lhe permitir de entrever a Verdade, vem oferecer-se a mim, como uma dádiva rara, enfeitada de laços coloridos em nós apertados. E não consigo desfazê-los. Sou incapaz de desapertar o embrulho do presente que amo e temo. É, de todas as matérias primas, a mais complexa de esculpir. 

Sim. São palavras que manipulo. São letras ordenadas que utilizo para compor os objetos que desejo oferecer-vos. Mas não as encontro. Fogem de mim como a jovem gazela corre numa tentativa desesperada de escapar à leoa esfomeada. Mas eu não sou leoa. Sou apenas um ser que desespera de conseguir capturar a sua matéria numa página branca que, também ela, tenta escapar-me.

Navego no éter das palavras e afogo-me em pensamentos inúteis. Pois, bem sei que tudo é supérfluo mas, mesmo assim, não posso deixar de escrever palavras soltas e perdidas. Não fazem sentido. Não formam um todo. Mas formam-me a alma. E, no fundo do receptáculo que me serve de depósito aos devaneios, fazem o seu ofício e impedem-me de me afundar do outro lado do espelho.

Dulce Mor@is  
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8 respostas a Matéria e Reflexo

  1. Estou aqui para abraça-la e dizer o quanto gosto do que escreves.Parabéns…abraçosveraportella

  2. Como é linda e corajosa essa nudez perante a folha de papel, o ecrã, o mundo… és uma força da natureza, Dulce!Não sei como consegues inspiração diária, tanta escrita, tanta poesia, como se brotasse de uma fonte. Eu mal arranjo tempo para um post por semana :)Beautifuk, as always!Um doce domingoRuthia d'O Berço do Mundo

  3. Por detrás de cada palavra acocora-se um sentimento. Devemos ser pudicas ao desnudá-las, elas merecem todo nosso respeito. Adorei, bjs ClaudiaBCavalcanti

  4. As vezes as palavras se atropelam e não conseguimos transferi-la para o papel e ficamos perdidas em meio aos nossos devaneios. Amei, bjus. => Gritos da alma => Meus contos => Só quadras

  5. Dulce,"bem sei que tudo é supérfluo mas, mesmo assim, não posso deixar de escrever palavras soltas e perdidas."Me descobri numa intimidade fascinante com teu belíssimo texto. Demais minha querida! Demais! Gr. Bj.!

  6. quando você as procura é quando elas estão mais presentes…Um abraço

  7. É tudo isso que me faz amar as palavras,mesmo vazias de sentimento alimentam a esperança que as nossas fantasias cresçam dentro delas.Beijo.

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