Intempérie

Arte: Ria Hills

Arte: Ria Hills

Intempérie

Ouvi o estrondo.
Vi a luz incendiar a noite.
Senti o eco.
Saí à rua.

Despi-me de tudo;
Dos pensamentos,
Dos elementos,
Das roupas,
E do sentir.

Recebi as gotas
Sobre a pele nua,
Acolhi o vento
Entre cada sopro,
Guardei a luz
Para melhor fechar os olhos.
E assim,
Nua,
Desprovida de tudo,
Vivi.
E fui rica
Do que não tinha,
Pobre do que era meu.

Se a vida fosse minha
E a trovoada silenciosa,
Se a luz subisse da terra
E o ser pudesse viver,
Teria sentido
O que não sei ser.

Apagou-se o relâmpago.
Calou-se o trovão.
Acordei despojada de mim
A alma molhada de chão.

Dulce Morais

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24 respostas a Intempérie

  1. Há certos poemas que simplesmente me silenciam, me deixam sem palavras, apenas com o sentir dizendo seus aromas do lado de dentro da pele. Bacio

  2. Parabenizo pelo blog. Sua verve poética é algo que me cativa. Seu poetar transpassando a epiderme atinge o que há de mais sublime no ser humano; a alma. Também me atrevo a escrever. Veja meu universo poético: http://www.entreopoemaeapoesia.blogspot.com.br/

    Abraços,
    Lima Júnior

  3. Jussara diz:

    Dulce, vim agradecer sua visita a Minas de mim – e por se tornar seguidora – e acabei recebendo um presente: a descoberta de um poetisa de verdade! Coisa mais que boa! A poesia anda tão banalizada que quando encontramos poesia verdadeira, viva, há que se festejar. Eis-me aqui a aplaudir.
    Abraço,
    Jussara – minasdemim.blogspot.com

  4. Gostei demais desse poema onde se busca o eu mais profundo e verdadeiro.
    Um abraço

  5. Na escuridão muitas vezes é que recebemos a melhor luz, aquela que nos despe de tudo e nos leva para esferas que nunca antes ousamos adentrar… Nesse momento teus versos esplêndidos retratam exatamente o que acontece com a gente, passamos a ser “ricos do que não temos e pobres do que consideramos ter”. Ah “se a luz subisse da terra e o ser pudesse viver”…. O que será que viveríamos? Guardarei o teu poema Dulce, para melhor fechar meus olhos. Gr. Bj. nessa tua alma linda!

    • Querida Cris,
      Cada palavra tua traduz a ideia que originou este poema.
      O que viveríamos? Acredito que simplesmente, passaríamos a viver e sentir de verdade e deixaríamos de fazer de conta…
      Obrigada pelo teu carinho e pela tua amizade, linda!
      Grande Beijo!

  6. Pois a eu-lírica teve o mesmo sonho que tenho todas as noites. Nus de pensamentos, de vestes, somos verdadeiramente ricos. A vida deveria ser leve da forma em que colocou em sua poesia Dulce. Demonstrou se importar com o que temos de mais importante: o ser. E eu (e nem ela) sabemos ser porque desumanizados somos a cada dia. Abraços minha amiga!

  7. Joo Carlos Lima LIMA diz:

    O soar da trombeta foi forte e lindo!

    Em 5 de setembro de 2013 16:24, Crazy 40 Blog

  8. “…Acordei despojada de mim
    A alma molhada de chão.”

    Amei !
    Bjs.

  9. Muito belo o poema Dulce. Despido de tudo, os sentimentos se tornam intensos e passarmos a perceber mais. Bjos.

  10. Isa Lisboa diz:

    Que excelente momento de libertação, este! Se pudéssemos mesmo despojarmo-nos de tudo, como isso seria bom!
    Beijinhos! 🙂

    • Isa,
      Mas é possível! Acredito que seja possível a todos!
      Nem que seja em instantes fugazes…
      Obrigada pela tua amizade e constante presença neste espaço!
      Beijinhos!

  11. Esta é Dulce Morais! Poesia na alma! Adoro! Beijo!

  12. Que belezura! Acho que é dos melhores poemas de sua autoria que já li. Um poema desnudo sobre o sentimento desnudo.

    • Alexandre,
      Por saber que os reserva para raras ocasiões, recebo cada comentário seu com deleite e humildade! O poema é desnudo, o sentimento o imita, e a autora, lisonjeada pela sua opinião, promete tentar deixar fluir mais vezes o que lhe vem naturalmente, mesmo quando mil dúvidas a avassalam..
      Abraço!

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