O Laço Preto

Arte: T. Corbella

Arte: T. Corbella

O Laço Preto

Tinha passado o dia ali sentado. Nada mais havia a fazer. Há muito que o corpo recusava obedecer às ordens que o seu cérebro enviava repetidamente.
Passava dias inteiros tentando mover um braço, uma mão, um dedo. Nada resultava. Nem a paciência de que se sentia repleto certos dias, nem a cólera irrepreensível que lhe chegava do nada e lhe dava o sentimento de já não se reconhecer.

Não lhe faltava nada na vida. Nem dinheiro para pagar os cuidados que necessitava, nem empregados que lhe aplicavam todas as receitas aconselhadas pelos inúmeros médicos, nem dependência…
Era isso que mais lhe pesava: a incapacidade de ser independente. Nenhuma acção, por mais simples que seja, lhe era possível sem assistência. Então, passava os dias sentado na cadeira de rodas, atrelado de todas as formas possíveis para não cair do seu assento, e tentava desesperadamente comandar ao corpo os gestos que sabia impossíveis.

Naquele dia, porém, algo inabitual tinha perturbado a sua intensa concentração e afastado o início de cólera que ameaçava.
Era um laço escuro, apertado no topo de uma cabeleira loira, que passou à sua frente. A dona do laço nem reparou na sua presença. Teria desejado segui-la do olhar mais tempo, mas a nuca recusava mover para a direita, na direção que a visão loira com um laço preto tinha seguido.

Ficou algum tempo a pensar nela. Quem seria? Porque razão passara ali? A casa era isolada e era raro ver transeuntes desconhecidos.

Porque razão teria a visão desaparecido tão rapidamente?  Claro! Montava uma bicicleta elegante! Parecia voar e não pedalar. Lentamente, revia cada detalhe da sua aparência, mas duvidava que fosse a realidade que lhe vinha à memória. Imaginava o vestido florido e amplo que criava um halo leve à volta do corpo esguio e elegante. Imaginava as sandálias delicadas.

Sabia não ter visto esses detalhes. Nada viu além da cabeleira cor do sol e do laço preto que a enfeitava.

Nem o olhar, nem o tom de pele, nem os lábios, nem os movimentos suaves eram lembranças.

Era apenas a sua imaginação que construía um tudo partindo de um mero pormenor pintado de luz e preto.

Dulce Morais

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19 respostas a O Laço Preto

  1. Marilene diz:

    Se real ou imaginário, não importa. Provocou devaneios, um voo, uma viagem para além da impossibilidade de se movimentar. Muito belo, Dulce. Bjs.

  2. Anne Lieri diz:

    Dulce,que belo e intrigante conto! O inacessível nesse belo laço! bjs,

  3. Olá, Dulce! Acompanho-te no face… resolvi visitar o resto da casa… espetáculo em cada cômodo! No conto, impressionante o detalhe do laço preto em uma cabeça doirada! A gente fica presa (também) a cadeira de roda do personagem e, de repente um simples laço nos liberta. A nós e a ele, o personagem. Belo! Beijos!

    • Lavínia,
      Antes de mais, muito obrigada!
      É sempre muito lisonjeiro saber que os meus escritos agradam aos leitores!
      Fico também feliz em saber que o conto a fez “sentir” e não só ler a história!
      Até breve!
      Abraço!

      • Beatriz Bragana diz:

        Querida Dulce A sua escrita fascinante! Parabns. Bom fim de semana Um abrao da Beatriz

        Em 4 de outubro de 2013 22:30, Crazy 40 Blog escreveu:

        > ** > Dulce Morais commented: “Lavnia, Antes de mais, muito obrigada! > sempre muito lisonjeiro saber que os meus escritos agradam aos leitores! > Fico tambm feliz em saber que o conto a fez “sentir” e no s ler a > histria! At breve! Abrao!” >

  4. Ruthia diz:

    Cada um tem o seu laço preto, inesperado, que surpreende e sobressalta de vez em quando. Subtrai o cérebro aos pensamentos comuns, rotineiros, enche-nos o coração de ternura. Ainda bem!
    Gostei muito, mas isso não é novidade nenhuma
    Beijinho, um doce fim-de-semana
    Ruthia d’O Berço do Mundo

    • É verdade, Ruthia: cada um tem o seu laço preto. O importante é de o reconhecer no emaranhado de visões que atravessam a vida…
      Obrigada pela tua visita e um excelente fim-de-semana para ti também!
      Beijinhos!

  5. Querida Dulce
    Muito profunda,a sua frase inicial.Parabéns.
    Mudou o visual da sua página:gosto muito.
    O conto está muito bem escrito.Infelizmente relata uma situação que não é única.Pela imaginação,podemos ir até onde quisermos…
    Muito obrigada pela partilha.
    Tenha um bom fim de semana.
    Beijinhos da
    Beatriz
    Blog – VIDA E PENSAMENTOS
    http://pegadasdeanjo.blogspot.com
    se pensar visitar-me,por favor deixe o seu comentário NO MEU BLOG.
    Desde já agradeço.

    • Muito obrigada, Beatriz, pela sua visita nesta nova casinha!
      É verdade que a imaginação nos transporta facilmente. Por vezes, a dificuldade se situa no regresso…
      Abraço!

  6. No inferno a alma vislumbra um pedaço do céu. Gostei , Dulce!
    Um abraço

  7. Bendita imaginação, que por sinal ,renovou energias e trouxe paz a sua alma.
    Bjs.

  8. Beth Q. diz:

    Belíssimo conto, Dulce!
    A imaginação leva a gente a interagir com pessoas, lugares e coisas que muitas vezes, sequer conhecemos pessoalmente.
    grande abraço carioca

  9. Aleska diz:

    Devia ser um cabelo muito bonito. Esse trecho me lembrou de um livro onde o rapaz não podia ver o rosto da menina pq ela era obrigada a usar véu. Ele ficava imaginando se ela era bonita porque a voz dela era maravilhosa.

Obrigada pelo vosso comentário!

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