Deriva

Arte: Ivan Aivazovski

Arte: Ivan Aivazovski

Deriva

No oceano da vida, muitos se sentem perdidos. Derivam pelas montanhas de água, o sal do desgosto e a amargura das algas ingeridas deixando nas almas um profundo sentimento de aflição.

Em embarcações frágeis e já muito danificadas pelas intempéries da vida, os corpos cansados de remar em tentativas tão desesperadas como inúteis contra os elementos, deixam os sentidos exaustos e parecem esconder ainda mais o horizonte da vista fatigada de percorrer cada recanto da superfície negra que envolve cada centímetro de visão, cada minuto da existência.

Em busca da salvação, agarra-se a troncos flutuantes cujas raízes já se perderam há muito ou nunca existiram. Tão frágeis como os desesperados, os pedaços de madeira só flutuam, deixando levar-se pelas correntes e, com eles, quem os segura.

Pelas ondas avassalado, prestes a afogar-se, o pedaço perdido de uma árvore há muito morta, deixa um vazio ainda maior no peito já abalado dos seres que acabam por largar a jangada com menos forças ainda que quando a ela se seguraram.

É necessário um trovão assustador, uma tempestade ainda mais forte, uma maré ainda mais devastadora, para que o oceano traga à superfície a embarcação salvadora. E o pobre ser, já sem forças, quase não se apercebe da presença que lhe estende uma mão amiga, quase não vê que o caminho que o levará até à terra firme onde poderá novamente pousar os pés e recuperar forças, está ali, tão perto.

Para o ver será talvez necessário fechar os olhos.

Dulce Morais

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5 respostas a Deriva

  1. Dulce,

    Quase sempre quando estamos em mar aberto não conseguimos visualizar o socorro, e quase sempre ele encontra-se bem ao lado, assim como tão bem revelastes. A calmaria pode ser o que buscamos, mas é na tempestade que quase tudo vem à tona.
    Sensacional seu texto!
    Gr. Bj.!

  2. Joo Carlos Lima LIMA diz:

    Muito bem! Como podemos mudar isso? Acompanhando a correnteza pelas orlas? Mergulhando em direo ao tronco?

    Em 3 de dezembro de 2013 15:03, Crazy 40 Blog

    • João Carlos,
      E se a resposta não fosse nenhuma dessas?
      Talvez ela seja diferente para cada um… mas com o ingrediente indispensável escondido entre as linhas acima…

  3. Ruthia diz:

    Caramba, arrasta-nos no turbilhão destas ondas gigantescas, com as suas palavras. Fantástico. Estou a torcer para que estes náufragos cheguem a um porto seguro…
    Beijinho, um doce restinho de semana
    Ruthia d’O Berço do Mundo

  4. Dulce, que beleza! Fiz um paralelo dessa postagem com a vida. Como lutamos e aprendemos para chegar a terra firme, quando chegamos! Ainda não conhecemos nosso porto seguro.
    Um abração,
    Manoel

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