(trans)Formação – Parte V

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(trans)Formação – Parte V

(clique aqui para ler os capítulos anteriores)

Continuo a não saber medir os séculos ou os milénios. Consigo apenas sentir. E sinto a dor crescer.
Se as minhas profundezas continuam em movimento, já não é esse fogo que me atormenta. O que agora me causa dor decorre à minha superfície.

Como pude eu criar algo que tanto me magoa?
Não deveria a minha criação respeitar-me?
Desconheço situações similares, pois tudo ignoro além do que vivo e sinto, mas sei que deveria existir respeito pelo que sou. Não compreendo a ausência de consciência das criaturas que agora me habitam.

Uma, em particular, desenvolveu-se com tanta força, cresceu tanto em apenas alguns minutos (ou será a minha percepção do tempo que está errada?) que pensa dominar as outras.
Todos os animais e as plantas que fiz nascer mantêm o meu frágil equilíbrio. Mas aquela espécie, mais numerosa e que se pensa mais poderosa, rouba-me o que não lhe é útil à sobrevivência, despoja-me do que me é essencial, para satisfazer os seus desejos fúteis.
Quer crescer ainda mais. Multiplica-se e evolui, mas esqueceu de quem depende.

Já não é uma carícia; é uma tortura que de sentir esta filha ingrata à minha superfície.
O meu fim aproxima-se. Morro lentamente mas inexoravelmente. Vou desfalecer.
E tu, Humanidade, morrerás comigo. Juntas caminhamos até ao nosso fim.
Já é tarde para me curar. Já é tarde para acordar.

Adormeço agora, sabendo que jamais voltarei a abrir os olhos…

Fim

Dulce Morais

Arte: Phil Perkins Fonte: http://fineartamerica.com/

Arte: Phil Perkins
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14 respostas a (trans)Formação – Parte V

  1. mochiaro diz:

    In saecula saeculorum expressa à ideia de eternidade.
    Mas o tempo limita essa infinidade dentre aqueles que são criação e não criadores.
    O sentimento é a existência de algo, uma percepção, uma emoção, um estado afetivo ao abraçar alegrias ou aspirar uma dor.
    Em fermentação pode gerar beleza e sabor.
    Ou gerar indigestão ou mal estar.
    No solo mãe o calor persiste no interior em eterna ebulição; indefinido e inexplicável, mas, esquecido diante de outros fatores que são mais qualificados.
    Um desgaste no atrito agressivo fere um solo mãe que deveria ser polido e apreciado.
    Genericamente sentindo uma revelação ou apocalipse se desvenda.
    Um grande dilúvio ou uma implosão diga um Big Ben; entre outras criações luz, ar, plantas e finalmente o ser humano.
    E, em tudo habita uma superfície sem respeito, agredindo a oferta gratuita e incontinente fere o solo egoisticamente para com outros seres vivente como eu.
    Dói em mim vivenciando essa transformação “em reflexão”,
    Ferindo meu ser por sentir-me impossibilitado de pesquisar comparações nesse universo infinito cercado por estrelas e planetas em luminosidade e ordenação.
    Será que no agir certo estou errado ou vice e versa.
    Foge uma hierarquia em detrimento de uma ganância de ser algo superior ou em vaidade extravagante.
    A força da natureza mantem, como afirma, o equilíbrio natural da existência.
    Mas o desgaste, o atrito, coroe essa película frágil na agressividade incontinente da ganancia de poder e destruição matando sua própria existência.
    O presente opera acima do futuro, na servidão de seus prazeres expurgando até seus descendentes.
    Um “ser” chora por essa transformação e agora enxerga no infinito uma regressão do tempo e uma diminuição do saecula saeculorum outrora “eternidade”.
    As chagas profundas marcam em cicatrizes envergonhando de vê-las e fecho os olhos marejados.
    Dulce
    Um querido abraço
    mochiaro

    • Mochiaro,
      O seu comentário poderia consistir na ideia essencial que me habitou ao escrever estes cinco capítulos.
      Haverá um dia, que penso estar muito próximo, onde teremos que regredir para poder sobreviver. Porque sem a nossa “Mãe Terra” nada podemos e nada somos.
      Obrigada pela sua preciosa presença e pelas suas reflexões que nos levam sempre um pouco mais além na reflexão.
      Grande abraço!

  2. você é extraordinário, sem comentários!!!

    E estou comunicando que “SEXO É UM PRODUTO DE CONSUMO” agora é
    “FRAGMENTOS DO ACASO”.
    Que tal conferir, é no mesmo endereço.

    Um abração carioca.

  3. Isa Lisboa diz:

    Dulce, parabéns por este conto que nos leva a refletir sobre essa nossa mãe que tão pouco abraçamos e mimamos!
    Beijinhos

  4. Ruthia diz:

    Já tinha pressentido esta metáfora em algumas das passagens anteriores. Vejo que não me enganei. A lucidez da Dulce podia ser como uma doença, contagiosa. A Humanidade ganharia muito com isso.
    Mil beijinhos, minha querida
    Ruthia d’O Berço do Mundo

  5. Estou contigo desde o início… Cheguei até aqui e sei que continuarei contigo, minha cara Amiga Dulce! Foram estas as únicas palavras que se permitiram sair…
    Grande e carinhoso abraço, Dulce!

  6. Dulce, o pessoal não está nem esperando ir para o inferno, está criando o inferno aqui. Gol da Alemanha! As grandes cidades estão inabitáveis. Gol da Alemanha! Por isso vivo no interior. Gol da Alemanha! Mas aqui o estio está ficando muito prolongado. Gol da Alemanha! E faltará água também. Gol da Alemanha! Ficam falando em crescimento econômico como se isso fosse bom , mas á mau. Gol da Alemanha! O que se tem de fazer é reduzir a população com planejamento familiar. Gol da Alemanha! Menos gente, mais natureza. Gol da Alemanha!

  7. Dulce, achei maravilhoso, de uma profundidade incrível. Vou dizer a mesma coisa que disse no post do Leonardo Mariotto de hoje no Pense. Acho que esse deveria ser um tema que deveria ocupar um lugar privilegiado na “lista” das nossas inspirações. Parabéns pela sensibilidade e pelo texto fantástico. Grande abraço;

    • Adriano,
      É verdade que se trata de um assunto importante que temos muitas vezes tendência a evitar…
      Obrigada pela sua leitura atenta e pelo seu comentário.
      Abraço!

Obrigada pelo vosso comentário!

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