Alheio

Foto: Dulce Morais

Foto: Dulce Morais

Alheio

Nunca entendi ao certo o que empurra um ser humano para a escrita.

Contar histórias? Sim. Parece uma motivação razoável. Mas, de todo o tempo se contaram histórias, bem antes que se grave na pedra ou na argila o relato das lendas que já povoavam a mente dos nossos antepassados.

Deixar um rasto no tempo para as gerações futuras? Certamente que é uma motivação, mas é a da arrogância. Qual razão fará que um príncipe do passado tenha tido mais mérito de passar à posteridade através dos escritos, que o mais miserável dos escravos de sua majestade? Do alto da sua auto-suficiência, o príncipe ignorava a existência do homem que ele próprio reduziu ao estado de objeto. Valerá ele mais que o servo?

Recordar os seus pensamentos, podendo voltar a eles num futuro mais ou menos breve? É possível que seja outra razão de escurecer páginas. Mas interrogo-me: o acto de escrever não será, ele próprio, o motor do esquecimento? Porque as ideias foram escritas, não terá o homem tendência a esquecê-las ainda mais rapidamente? Qual escritor produtivo nunca viveu o momento de encontrar, ao fundo de uma gaveta, uma folha dobrada contendo um texto escrito pela sua própria mão, mas do qual não conserva nenhuma lembrança? Se o não tivesse escrito, talvez a sua memória tivesse guardado o sentimento ali expresso…

E a cobardia? Não será essa a maior das motivações para a escrita? Escreve-se o que se não pode viver, o que não se atreve a viver. Vive-se por procuração, através de personagens inventadas à sua própria imagem (podem todos negar ser exato, ninguém pode esconder por muito tempo que, em cada personagem inventada, se coloca uma parte da idealização que o autor tem de si próprio) as aventuras que se tem medo de iniciar, diz-se as palavras que se calam na vida.

Se todas essas razões são válidas, então serei aqui cobarde, arrogante e inútil. Porque, se o leitor pode agora ler estas palavras, é que as escrevi um dia. E não entendo ainda a razão de o ter feito, de o estar a fazer.

Tenho pensamentos. Certo que estou de ser o único, tenho a arrogância de os deitar aqui para que outros os possam ver e que me digam que estou certo, que estou errado, que o meu caminho leva a um beco sem saída, que me hei-de arrepender ou que foi a melhor coisa que fiz.

Tenho ideias. Sobre tudo ou quase. Sou um incansável curioso que devora o conhecimento para os mais inúteis propósitos, um bêbado de letras que transforma as palavras em vinho e as frases em licor para as saborear lentamente. Todo esse esforço é vão porque não me traz nada de concreto. Não me enriquece nem me empobrece. O conhecimento não é nenhum tesouro. São apenas grãos de areia no Universo que nos convencemos serem importantes, mas que não conduzem a qualquer lugar.

Tenho desejos. Mas fico paralisado à ideia de os viver, de sair à rua e amar como se amanhã não existisse. Tenho medo de me queimar à chama do viver. Prefiro o tédio de um cadeirão pousado perto de uma lareira que não é minha, aquecido por um lume que não ateei, e escrever o que seria bom viver. E esta cobardia avassala-me. Porque é conscientemente, sem qualquer dúvida que nada mereço, porque nada começo, que prefiro deixar estes desejos inúteis – porque impossíveis a concretizar – tomar vida (ou será apenas um ersatz de vida?) nas páginas de um caderno adquirido a baixo custo numa loja que esqueci por completo?

Relembre-se o leitor que o conhecimento não é nada. Sei o quanto tudo o que tenho escrito me não vai levar a qualquer lugar. Vai apenas ficar estático aqui, no branco que já não o é e que nunca voltará a sê-lo.

Dulce Morais

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21 respostas a Alheio

  1. Mochiaro diz:

    Alheio não tanto!
    Li pausadamente o texto percorrendo as ondulações das frases em busca de uma estabilidade serena emuma navegação segura e orientada.
    Em torno dessa sinuosidade em muitas das palavras parei e meditei no auxílio de uma definição mais aceitável por tudo que ali se desenvolvia.
    Que impulso alarmante e esse que nos impulsiona de uma forma automática a direcionar nossos músculos a ação de pegar uma caneta ou um simples lápis e tal como robótico desenvolver um texto Literário, ficção ou não.
    Por várias vezes parei num semáforo em suas frases e me deixava desenvolver automaticamente em seus escritos e perguntas.
    Tentei unir a escrita a uma experiência vivida mas, não era isso que iria definir esse impuso; esse meio adquirido; nada mais era que uma descrição de uma fato existente e não uma maneira expontânea .
    Um fato me ocorreu de um compositor que levava sempre no bolso uma folha é um lápis.
    Caminhava pela rua na mistura da poluição ambiental é vez por outro balbuciava conversando com ele próprio.
    Exemplo esse que me fez um dia agir de forma semelhante, onde eu precisava resolves uma série de anotações reunida em um espaço pequeno e graficamente.
    Passei a mudar após o meu expediente o caminhar em uma direção a pé tendo um papel e um lápis
    Num dado instante uma magnetização herdou-me a solução e eu rascunhei no papel os primeiro traços.
    Completei depois em minha casa e ali estava a solução antes impossível.
    A visão de um momento que por vezes mexe com o sentimento nos faz ao descansar sonhar por uma versão ou escritos nos despertando em plena madrugada.
    São palavras que surgem que nos fazem buscar definições no dicionário de forma auxiliar.
    Um magnetismo que nos chega automaticamente.
    Escrevemos é guardamos na gaveta ,tal como, afirmas-te em seu texto e, tempo após, buscando-o, duvidar que fomos o escritor.
    Gira em torno de nós letras como satélites que no momento exato nos buscam para acoplar-se e montar a frase ou tema.
    Nasce daí num escritor sem que a razão explique.
    Ao buscarmos um escrito em uma gaveta, um anotado em um bloco, nos faz alterar o sentido do texto pois o mesmo deve se adaptar ao momento presente.
    Em tudo há um início,que nos faz rascunhar algo que nos chega em espécie; um meio onde tudo se desenvolve é um fim inalcançável nesse tempo infinito de mudanças.
    O melhor momento é quando nos chega às palavras sem pedir licença e no vazio aparente de nossa mente cria o cheio de ideias e soluções.
    Procurar uma resposta à pergunta por que escrevemos será impossível de responder.
    O melhor é sabermos que somos criação e não criador.
    Que somos imperfeitos e aprendiz nesse universo.
    Felizes por sermos comtemplado é sermos escolhidos por receber essa missão.
    E, transmitirmos o máximo de belezas que em nossa escrita artesanamos.
    Você escreve de uma maneira livre e expontânea e, eu leio, releio, comento, sintetizo, admiro.

    Lembro de umas palavras:

    Quem sou eu diante da natureza?
    Um tudo diante do nada:
    Um nada diante de um tudo;
    Ou um meio entre nada é tudo

    Um afetuoso abraço !;

    ..

  2. Ruthia diz:

    Ah, se soubéssemos porque escrevemos seríamos muito sábios. Mas acho que mais importante do que o porquê é o como! O que lá colocamos. Que seja sempre amor, porque de raiva e amargura anda já o mundo cheio.
    Muitos beijinhos
    Ruthia d’O Berço do Mundo

    • A raiva e a amargura enchem o mundo, é verdade, Ruthia.
      Fazem parte da vida e são por isso suficientemente abordados.
      O importante, afinal, é de expressar o que nos preenche, dando asas à imaginação.
      Obrigada pela sua presença!
      Beijinhos!

  3. Pessoalmente escrevo, quando escrevo porque infelizmente ainda não me libertei das correntes do luto ou dos fantasmas de um passado com início em 2009, para lavar a alma. Há anos atrás, quando ainda era livre, fazia-o também para denunciar e provocar.
    De uma maneira geral, sinto a necessidade de discutir e analisar temas. De aprender! Por isso, tanto gosto de blogues.
    Abraço 🙂

  4. AC diz:

    Dulce,
    Para mim essa questão do porquê de escrever não levanta muitas questões. Para quê estar a escalpelizar? Apetece-me, tenho vontade, pode ser que alguém se reveja no. No fundo é como pintar uma tela: se alguém, ao passar, sentir algo, então já valeu a pena.

    Um beijo 🙂

    • AC,
      Essa questão também não se levanta para mim!
      Este meu pequeno delírio, escrito ao 3º grau, teve muitas reações que o interpretaram ao 1º…
      Sabemos o que enviamos ao leitor, mas nem sempre o que ele recebe 🙂
      Abraço!

  5. Dulce querida eu também me perco nesses questionamentos sobre a escrita.
    Eu não lembro direito quando comecei a escrever; eu sempre digo que, desde que me entendo por gente, escrevo.
    Lembro que a primeira vez que escrevi alguma coisa – minha guarda até hoje – foi uma adaptação de uma das histórias que a minha mãe contava para nós (meu irmão e eu) antes de dormir. Histórias de ninar, digamos! Até hoje não sei porque escrevi eu aquela historinha. Mas eu sempre fui fascinada pelo mundo dos livros. Sempre gostei de ler e automaticamente comecei a escrever para desafiar os meus conhecimentos.
    Na adolescência eu escrevia como desabafo. O papel era o meu melhor e ali eu relatava momentos íntimos, deixava a minha alma exposta. Fui gostando da “coisa” do escrever e não parei mais. Não sei se tenho vocação para a escrita, mas gosto do cheiro das minhas rasuras. (rs). Acho que foi por isso que me formei em jornalismo. A “culpa” é dessa mania de escrever em todos os lugares, até mesmo em guardanapos de papel.
    Escrever é uma maneira que encontrei de aliviar a alma!

    Beijos Dulce!!^^

    • Suzana,
      Que bonito ler a partilha da sua experiência!
      O prazer da leitura, quando é despertado em nós bem cedo, pode vir a condicionar-nos, não é mesmo?
      Muito grata pela sua presença!
      Bjo!

      • É verdade Dulce!! A leitura é uma alegria despertando sentimentos. E acho que a minha escrita é um desafio proposto pelas minhas leituras. (rs).

        Beijos querida!!^^

  6. O que faz o serrote serrar? O serrador.
    Por que o serrador serra? Porque precisa serrar.
    Por que precisa cerrar? Só ele é sabe.

    O que faz a pena escrever? O escrevedor.
    Por que o escrevedor escreve? Porque precisa escrever.
    Por que precisa escrever? Só ele não sabe. Ele apenas escreve.

    Grande abraço, Dulce!

  7. Quando se escreve, a Alma revive o sentimento e o momento do tempo.
    É complicado fazer notação da opinião apenas com um único sentido.
    Quando escrevo, tão só manifesto o que me vai (ou foi) na Alma. Assim digo que são “Poemas da minha vida, situados entre sonhos, realidades e poesia…”
    Dos demais, absorvo a outra Alma que me alimenta com as suas palavras.
    Gostei do Post .

    Beijos

    SOL

    • Obrigada pela sua presença, SOL!
      É complexo (para não dizer impossível) descrever o que nos vai na mente, no peito, na alma, no ser, quando escrevemos.
      O importante, afinal, é que, ao fazê-lo, seja a essência que se transcreva no papel.
      Abraço!

  8. David diz:

    Também eu fiquei a pensar,
    se deveria ou não comentar
    o que em cima acabei de ler…
    E aqui comecei a escrever
    mesmo sem sequer entender
    nem de longe
    e muito menos de perto,
    se o que escrevia estava certo
    ou tão pouco…
    o que quereria dizer.
    – Foi uma simples vontade,
    sem arrogância nem altivez
    e diga-se em abono da verdade,
    dentro da minha pequenez,
    ser tão só,
    um singelo, mas impulsivo,
    acto de escrever.

  9. Bom dia Dulce, interessante o teu pensamento em relação a escrita. Porém ao meu ver escrever é permitir que os meus sentimentos sejam guardados de forma que eu possa lembra-los quando quiser, também sinto neles a participação de colegas invisíveis que insistem em me acompanhar, seriam então os meus pensamentos registros de momentos que ficarão inesquecíveis se forem bem estudados e raciocinados.

    DJALMA

    • Olá Djalma.
      Como o título indica, este pensamento é-me alheio…
      Foi um devaneio, uma momento imaginado na mente de alguém que não sou eu mas que escrevo apenas, que invento.
      Mas, quem sabe, talvez ele tenha razão, pelo menos parcialmente 🙂
      Obrigada pela sua atenta leitura e pelo comentário!
      Abraço!

  10. Amigo e ilustre conterrâneo. Deixei-me prender no seu pensamento. Também não encontro razões para efectuar uma escrita útil e que conserve a razão onde se baseie essa escrita.
    Não me levará a mal, mas no meu modesto pensamento, atrevo-me a dizer que a escrita será uma arte como a música, a pintura ou mesmo a escultura.
    A escrita não se baseia apenas em recordar factos ou acontecimentos.
    A escrita leva.nos em viagens onde as personagens têm o condão de se tornar nossas amigas ou inimigas,de nos perseguir,abraçar ou connosco chorar.

    • Olá Luis,
      Não sei se sou ilustre, mas conterrânea pareço ser 🙂
      A escrita é tudo o que aqui foi escrito, e ao mesmo tempo não é nada disso. É muito mais que tudo isso, e é impossível a descrever… mesmo por quem escreve.
      Mas, porque nada na escrita é superfluo, o título deste meu devaneio tudo diz…
      Volte sempre!
      Até breve.

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