Significados Perdidos

Decoração da árvore de Natal há tantos anos que nem vale a pena dizer quantos...

Decoração da árvore de Natal há tantos anos que nem vale a pena dizer quantos…

Quando era pequenina e aprendia a ler e escrever, a minha avó acostumou-me, como um exercício anual, a escrever uma composição sobre o Natal. Cada ano escolhia um assunto, uma pessoa, um evento ou um sentimento que faziam então parte da minha atualidade, e escrevia. Mesmo adulta, mantive essa tradição sem a qual, ou assim me parece, as celebrações do Natal não seriam as mesmas.

Este ano, talvez por ser o primeiro que passarei sem ela, reli alguns desses textos e gostei de constatar a evolução de uma criança que se torna adolescente, para depois se transformar numa adulta, mais ou menos confiante segundo os anos, mais ou menos pousada, mas sempre aquela que observa, pensa, analisa e escreve, como que transcrevendo para o papel o resultado desse percurso, as conclusões dessas ações.

Uma vez não é costume, este ano escolhi partilhar convosco essa minha composição que, se já não é um exercício escolar, continua a ser um exercício da mente. E, porque os anos vão passando, é natural que se percam algumas marcas: já não se acredita no Pai Natal, já não se pensa que o mundo é um ideal em que a bondade é o principal objetivo, já se aprendeu que o silêncio vale muitas vezes mais que todos os discursos, mas sobretudo, já se perderam significados. Quais? Quase todos!

Constatamos, nas semanas que precedem o Natal, um aumento considerável de mensagens de solidariedade: “Pensem nos que estão sós!”, “Cabe a cada um fazer que todas as crianças possam celebrar Natal.”, “Devemos todos ajudar os sem abrigo que sofrem da fome e do frio!” ou ainda “Doemos tempo e meios para ajudar a pesquisa científica contra a doença x ou y.” São mensagens como estas que nos chegam todos os dias, e a frequência vai aumentando à medida que o Natal se aproxima.

Considero-me uma pessoa sensível, mas – ou assim o espero – não deixo de ser sensata. Cada mensagem de solicitação dá-me vontade de contribuir, claro! Mas é também uma evidência que não posso contribuir para todas as causas. Mas a questão não é bem essa. O que me preocupa, é que todas essas causas passem quase despercebidas durante os 10 primeiros meses do ano, para passarem a ter importância apenas na época do Natal. Afinal, a solidão existe ao longo do ano, crianças carentes atravessam a nossa vida ao quotidiano, cruzamos todos os dias pessoas sem abrigo, e as doenças não deixam de existir no dia 26 de dezembro de cada ano! Mas nós, Humanos supostamente civilizados, temos tendência a fechar os olhos para essa(s) realidade(s) porque a nossa vida, os nossos desejos, os nossos medos, as nossas preocupações triviais, são, aos nossos olhos, bem mais importantes que uma criança que conserva o estômago vazio à hora do almoço!

Será crueldade? Não! É Natural. Uma pessoa só não pode carregar o peso de todas as desgraças do mundo. Não é assim que pensamos todos os dias ou, pelo menos, sempre que somos confrontados com as dificuldades alheias? Pensamos isso, sobretudo, quando a nossa vida nos ocupa demasiado, quando queremos absolutamente que um filho, um companheiro ou um colega admita que temos razão sobre uma ou outra opinião que partilhámos, quando o nosso metro vai partir e que devemos correr nas escadas, ao risco de pisar o idoso esfomeado que ali está sentado a pedir esmola…

E, quando chega a hora do Natal, sentimos que chegou o momento de pousar, de prestar atenção, de abrir os olhos – mas não muito – à realidade alheia e de estender a mão, incentivados por campanhas publicitárias sabiamente calculadas, a quem mais precisa. Então, para que a nossa consciência tranquilize, vamos doar tempo e, talvez, algumas moedas para tentar fazer nascer um sorriso no rosto de quem não tem mais nada a oferecer.

Vamos então correr, entre duas compras de presentes fora de preço e perfeitamente supérfluos que destinamos a quem é importante nas nossas vidas, até ao centro comercial e dirigir-nos à bancada da associação por nós escolhida, para deixar no cestinho previsto para o efeito, um quilo de arroz ou uma nota (não muito grande, pois ainda devemos comprar aquele outro presente para o afilhado) na caixinha que nos é apresentada.

E voltamos logo à nossa correria, descendo os degraus quatro a quatro para não perder o metro que está quase a partir, atropelando desta vez uma menina magricela e que parece não ter tomado banho há várias semanas…

Natal não é isso! A solidariedade não é isso! A Humanidade não é isso!
E se todos parássemos, nem que seja uma vez por semana – mas durante o ano inteiro, para pensar nos que não têm a nossa sorte? Não é preciso doar valores se não os temos. Mas um sorriso à criança que tem fome, uma palavra para dar coragem ao mendigo sentado nas escadas, um quilo de arroz levado à associação do lar de idosos mais próximo, ir tocar à porta do vizinho que vive sozinho e que, nós bem sabemos mas tentamos ignorá-lo, sofre de depressão, simplesmente para conversar um pouco e, quem sabe, partilhar um momento à volta de um café, são gestos que podem contribuir a mudar o mundo!

Se cada um de nós, que temos a sorte de ter um lar, comida à mesa e amigos com quem contar, partilhar, ao longo do ano e não só durante o último mês, um pouco de tempo e de meios com quem menos tem, então, talvez, Natal passe a ser verdadeiramente Natal! Sem correrias através dos corredores dos centros comerciais, sem indiferença ao que é importante.

Uma única pessoa não pode mudar o mundo. E eu bem sei disso! Já tentei, mas o papel onde escrevi o mundo perfeito rasgou-se… Mas se todos nós começássemos a escrever outro mundo ao quotidiano, talvez os significados perdidos das palavras “Humanidade”, “Solidariedade”, “Ajuda”, “Consciência”, “Natal” e de tantos outros, voltem a ser encontrados.

Feliz Natal a todos os leitores deste cantinho sem pretensão, e a todos os que não sabem que ele existe, mas que também merecem felicidade!

Dulce Morais

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24 respostas a Significados Perdidos

  1. Saudações Dulce! Muito bacana quando temos a oportunidade de ver nossa evolução através de velhos diários. Beijos e abraços

  2. Clau Assi diz:

    Janeiro!!
    Passando pra desejar que o ano seja de muita poesia e brisa.

    Beijo ternurento
    Clau Assi

  3. Vanessa diz:

    Adorei teu texto, Dulce. Na verdade eu penso muito sobre isso, sobre o como corremos o ano inteiro e esquecemos das necessidades dos outros. Ou também o oposto, às vezes paro para pensar no tamanho desse mundo e de todas as pessoas que sofrem por algum motivo. Então me sinto tão pequena e impotente ao constatar que não posso salvar todos eles. Eu queria muito que um dia o mundo fosse justo para todos.

  4. filosofaresidente diz:

    Li esta composição com um sentimento de pertença. Também eu penso nisto várias vezes durante o ano. A minha avó no alto dos seus 79 anos bem me diz: “Filha, o Natal faz-se durante o ano.”. E é verdade, uma hora, um saco de alimentos, uma palavra de conforto, uma ajuda durante o ano, contribui muito para a felicidade e o bem estar de quem precisa, não só no Natal, mas durante todos os meses do ano. Porque quem precisa, não precisa só o Natal, mas durante o ano. Feliz Natal Dulce e boas entradas.

  5. Rancho das Crônicas! diz:

    Feliz Natal Dulce, que todos possamos nos encontrar neste tempo e descobrir que em nós a luz pode nascer e contagiar aqueles que estão ao nosso lado.

  6. Clau Assi diz:

    Que o Cristo renasça em cada um de nós!!
    Feliz Natal!!

  7. Texto pertinente e responsável. A oportunidade do tempo de Natal não pode ser apenas o negócio das sensibilidades. Há que manter viva a chama do Amor.
    Desejos de um Santo e Feliz Natal.

    Beijos

    SOL

  8. Querida Dulce, conhecer o seu cantinho foi um presente pra mim! Cada verso, cada letra e cada sentir é um encanto. Obrigada pela sensações e arrepio na derme!!!

    Que o seu natal seja um encanto. Que a felicidade abrace você e toda sua família!!!

    Um Natal maravilhoso!!!

    Beijos e abraços poéticos!!!

  9. Sissyms diz:

    Querida amiga,

    Enquanto ouço a musica compartilhada, vou pensando no que significa atualmente o Natal para mim. Nada mais. Já tem anos que não dou tanta importancia na minha vida, mas sei o quanto é encantador para muita gente.

    Boas Festas.

  10. Oi, Dulce…é verdade que o Natal nos traz lembranças , alegrias e saudades, muitas saudades, mas de algum modo a magia do Natal nos deixa melhores ou pelo menos com mais vontade de ser mais solidário com um mundo tão perdido em suas causas e razões. Um Menino que nasceu trazendo a esperança do Amor Maior , traz em si a semente da paz e da felicidade possível.Um abraço e Feliz natal!

  11. Dulce, como me sinto feliz ao ler esse seu depoimento! Como é bom sentir (e sinto isso a cada dia, mais um pouco) que a escuridão da noite vai se pontilhando de estrelinhas… Dia virá, não tenho dúvidas, em que aquilo para que veio o Aniversariante Natalino será o cotidiano da vida das pessoas. Esse seu sonho é o bálsamo que deve acalentar todos os corações que se inspiram no bem e na Verdade! Que Deus abençoe os seus ideais, minha amiga!

  12. Dulce,

    Foi boa a iniciativa da tua avó.
    FELIZ NATAL!

    =)
    Marcos

  13. Precioso o seu texto e preciosa a música que o acompanha. Obrigada por compartilhar.

  14. David diz:

    Perante o pertinente e acutilante rol de notas deixadas na pauta da vida que acima nos espraiou, que poderei dizer?
    – Que me emocionou!
    Hoje e sempre, a quem os quiser receber:
    – Votos de FELIZ NATAL, de que o futuro seja melhor do que o presente e muito melhor do que o passado, seja ela qual for a perspectiva…de vida.

Obrigada pelo vosso comentário!

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