Na multidão, a imagem – com Isa Lisboa

Tigran Tsitoghdzyan; Painting, Mirror

Tigran Tsitoghdzyan; Painting, Mirror

Na multidão, a imagem – com Isa Lisboa

Curioso. Parecia mesmo um espelho, este objeto aqui disposto. Mas nada reflete.

Não teria muito para refletir, a sala está vazia, apenas habitada por este objeto reluzente, apoiado em pés de madeira já gasta. Para além dele, só a mesa onde descansa, nem cadeiras deixaram para trás.

Mas nada disto se vê no espelho, afinal será só vidro, apesar de todo o aspecto de espelho que o envolve.

Pego nele, talvez mais de perto me reflita. Mas não, lá continua apenas o reflexo da luz da janela.

Procurando o reflexo que não vejo, voltei para mim.

Se a forma não existe na superfície refletora, não pode haver existência. Como um corpo que se pode ainda tocar mas cuja matéria parece desaparecer com qualquer tentativa para a apreender.

E a pergunta a ser respondida deixou de ser a da qualidade para se concentrar na materialidade do ser. Poderá ainda existir, viver, respirar, sem ser?

Volto de mim, e apercebo-me então de que algo está dentro do espelho. Digo algo, porque reflexo não é. Pareceria, à primeira vista, pois pestaneja quando eu pestanejo, aparenta a mesma confusão que eu sinto.

Mas não é meu aquele reflexo. Poderia ser meu primo, talvez, mas não foi este o homem que o espelho de casa me devolveu ao sair.

Talvez seja esta luz – estranha – que entra pela janela. Não me deixa ver bem. Preciso de mais claridade.

De tanta tentativa frustrada de se ver no reflexo, nasce a vontade de compreender se o fenómeno se produz unicamente com ele ou se é aplicável a todos. Armado de uma força que desconhecia até aquele momento, carrega o objeto tão intrigante e instala-o na praça central onde convergem todas as ruas da cidade.

Ali, visível por todos, reflete os transeuntes. Ele, sentado ao lado do misterioso espelho, observa as imagens de quem cruza o seu caminho. Mas ninguém parece mirar-se, ninguém ajusta a gravata ou o chapéu, ninguém parece prestar atenção ao espelho que não deveria estar ali exposto.

Torna-se claro, então, que ninguém no espelho se vê a si próprio.

“E o Mundo, será que se vê a ele mesmo?”, pensa ele.

Tantos rostos eu reflito – pensou o Mundo, assombrado – todos eles serei eu?

Rostos apressados, calmos outros; felizes, outros tristes, passos certeiros, desorientados outros, altos, baixos, louros, morenos, olhos castanhos, azuis, peles tisnadas pelo sol, protegidas por maquilhagem, todas elas variadas, e ainda as jóias, os relógios, os lenços, os chapéus, os óculos, os guarda-chuvas.

Tantos rostos se me dirigem, tantos rostos de mim se afastam, todos eles serei eu?

De repente, uma frase trocada ecoa e, se um não se vê no espelho, identifica todos os seus companheiros postados em frente do misterioso objeto.

E todos dizem que sim, podem ver todos os presentes menos eles próprios. No reflexo foram substituídos por um desconhecido, cada um vendo no seu lugar alguém que nunca viram.

É claro, leitor, que as imagens são reais mas só para os que não tentam encontrar-se. Mas, se todos reconhecem outrem no reflexo, só vêm nele a imagem que fabricaram de cada um e não o que cada um é realmente. É a imagem que se fabrica na mente alheia do que cada um deve ser.

Ali, entre tantos diferentes mas iguais, ele que sabia quem era, não podia encontrar-se.

Isa Lisboa e Dulce Morais

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14 respostas a Na multidão, a imagem – com Isa Lisboa

  1. “Os olhos são a candeia do corpo. Quando os seus olhos forem bons, igualmente todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas quando forem maus, igualmente o seu corpo estará cheio de trevas. Portanto, cuidado para que a luz que está em seu interior não sejam trevas. Logo, se todo o seu corpo estiver cheio de luz, e nenhuma parte dele estiver em trevas, estará completamente iluminado, como quando a luz de uma candeia brilha sobre você” Lucas 11:34-36

    Adorei i texto totalmente reflexivo, e pertinentemente questionador. Bjs nas duas!

  2. Achei muito interessante este jogo entre o espelho e o ser; entre a imagem que se vê e a que se é.
    Parabéns a essa dupla imbatível!

  3. Isa Lisboa diz:

    Obrigada por recordares este conto, Dulce! 🙂

  4. Ruthia diz:

    Este texto deixa-me algo perplexa. Ser, estar, parecer… em vez de um espelho, social, devemos procurar a nós próprios no âmago do nosso ser. Tudo o resto é miragem.
    Vocês trabalham muito bem juntas. Parabéns às duas poetisas.
    Beijinhos
    Ruthia d’O Berço do Mundo

    • Ruthia,
      Talvez seja devido à complexidade do Humano… Há tantos elementos a considerar, tantos conjuntos e junções a fazer, que o ser acaba por perder-se…
      Obrigada pela gentileza e constância da sua presença!
      Beijinhos!

  5. É preciso ser para estar ou nem isso?

Obrigada pelo vosso comentário!

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