Levitação

Arte: Souvenirs Andrée Desrochers http://www.andreedesrochers.com/

Arte: Souvenirs
Andrée Desrochers
http://www.andreedesrochers.com/

Levitação

Parou mais uma vez frente à porta. Havia meses que não entrava naquele quarto. Tinha esquecido exatamente quanto tempo passara desde a última vez. Lembrava apenas a sensação que temia mais que tudo. A mão na maçaneta da porta, aguardou imóvel mas quase sem fôlego. Tudo nela funcionava como em câmera lenta, excepto a sua respiração. Sentia, como uma onda lenta, a adrenalina percorrer-lhe as veias. Via cada grão de pó diante dela, numa dança há muito ensaiada e no entanto tão desconhecida. Sentia sobretudo a tontura tão familiar de observar um poço enorme que tinha sido cavado no seu peito desde a última vez que tinha passado aquela porta.

Finalmente decidida a enfrentar o que iria encher-lhe os olhos e o coração, girou a maçaneta e ouviu, como um sino que soava nas profundezas da alma, o ferrolho ceder. Abriu a porta lentamente como se avança numa floresta desconhecida, atenta a cada sopro de ar inspirado, a cada movimento do corpo, pronta para travar luta contra as emoções que – sabia – iriam invadi-la lentamente ao risco derrubá-la definitivamente.

A passos lentos e conscientes, entrou finalmente no antro que se tinha proibido visitar durante tanto tempo. Vinha ali procurar o que sentia que perdia aos poucos e que só poderia encontrar naquele lugar. Observou primeiro o mobiliário. Clássico e simples, de formas suaves, quase irreais, a cama poderia ter sido pousada ali por um sopro. Dava a sensação de não tocar o solo. Parecia uma nuvem perdida que flutuava alguns milímetros acima do assoalho. De cada lado da cama avistavam-se dois candeeiros em forma de corola de tulipa invertida, apenas maiores que uma mão. Acendeu um e deixou o bater do coração acelarar-se.

O olhar pousou-se em seguida na cómoda que se encontrava contra a parede oposta. Gravuras de folhas de castanheiro decoravam as gavetas. Era como se o enfeito não tivesse sido gravado na madeira, mas que esta se tivesse formado à volta das formas desenhadas. Abriu a primeira gaveta e percebeu, naquele preciso momento, que não recordava o que ela deveria conter. Encontrou roupas dobradas com cuidado; um pijama às riscas vermelhas, alguns pares de meias e ali, por baixo dos pulóveres com representações gráficas, viu a capa azul do caderno que ela própria tinha embrulhado para oferecer. Há quanto tempo teria sido? Um mês? – Não, não era há um mês. Seis meses? – Talvez. Mas que dia estávamos? Mesmo a data se tinha apagado da sua consciência. Mas já não tinha importância desde que a tinha perdido.

Ficou ali, como um fantasma, suspensa no tempo como a cama parecia estar suspensa no espaço. Viajava interiormente, mas são viagens que não podem contar-se com palavras. Essas só podem viver-se. É impossível relatá-las. Podem apenas ser sentidas.

De repente virou-se, dirigiu-se a passos rápidos até à saída e bateu a porta atrás de si com violência. A maçaneta reclamou mas cedeu e fechou-se. Sabia o que procurava e estava ciente que o poderia encontrar em cada objecto naquele quarto, em cada página do caderno de capa azul. Mas sabia também que, se o encontrasse, não poderia continuar a avançar. E era necessário avançar apesar do vazio que se tinha feito nela.

A memória é assim. Desaparece quando desejaríamos conservá-la e assalta-nos quando gostaríamos de a ver afastar-se. E a menina que respirava por sacadas, encostada à porta agora fechada naquele corredor escuro, sabia que é melhor deixar fugir certas lembranças.

Dulce Morais

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15 respostas a Levitação

  1. Gostei tanto!
    Votos de um bom dia 🙂

  2. AC diz:

    Dulce,
    Por mais que certas lembranças nos confundam, elas são mais um tijolo do nosso edifício interior, do qual não podemos prescindir. Eu sei que, certas lembranças, precisam de tempo para serem olhadas de frente, mas não adianta fugir delas. Apenas nos resta abraçá-las e viver com elas.

    Um beijinho 🙂

  3. Tudo se mistura e se separa de forma estrondosa e ao mesmo tempo serena somente nesse trecho: “A memória é assim. Desaparece quando desejaríamos conservá-la e assalta-nos quando gostaríamos de a ver afastar-se.”

    Tantas vezes, tantas, tantas, temos à nossa frente maçanetas a romper. A hesitação, o medo, o desconforto, a curiosidade, a necessidade, etc, todos os elementos interiores parecem borbulhar diante delas, um misto de euforia e descontentamento parece nos invadir, um clamor interior por respostas nos leva sempre ao primeiro passo, e este por sua vez deflagra a caminhada, às vezes dolorida mas, necessária se pensarmos bem. Seguir é preciso.

    Preciso dizer que me vi inteiramente?

    Bj minha linda!

  4. Mochiaro diz:

    Busca – interrogação ?
    Realidade – esclamacao !
    Marcas – no inanimado
    Movimento – no seguimento
    Revolta – no fechamento
    Acolhimento – na reflexão
    Vida em contínua Existencia

    Aceitação…

  5. Eu, diferente do Gilberto, já acho que se trata o tempo todo de desejo, descoberta e cura. Mas sempre há a possiblidade de grandes e novas aventuras quando se abre uma porta, hum?

    • Mariel,
      As aventuras são sempre possíveis… depende da escolha que fazemos.
      O importante, porém, é aceitar fechar certas portas para poder abrir as seguintes 🙂
      Abraço!

  6. EP.GHERAMER diz:

    Sempre gostei deste Conto, Dulce!

  7. Dulce, esse pequeno conto é um transporte para o cenário e o clima psíquico em que se desenvolve. Nesse ambiente, fala-nos de passado, presente e futuro, incita-nos a avançar, a remover os freios… Obrigado por compartilhar!

  8. Mariana Gouveia diz:

    Ahhh! Suspirando! Lindo!

Obrigada pelo vosso comentário!

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