Fogo – com Alexandre Cimatti

Arte: Dove of Fire Por: Vickie Conde

Arte: Dove of Fire
Por: Vickie Conde

Fogo – com Alexandre Cimatti

No início, apenas senti o ligeiro calor na pele, como uma carícia trazida pelo vento, apagando o frio que viajava em mim. Lentamente consumiu-me sem nunca arder. Era como se, pela primeira e última vez, pudesse perceber e entender aquilo a que todos chamam de fogo interno, aquilo que vem porque vem e vai porque vai, sem ponto de partida e sem destino, o que é autoridade sobre o que temos de autoritário. Esse fogo, mais do que interno, mostrou-se íntimo, pois era como o eterno que sempre ali esteve, sem se revelar; podia me guiar, sem hesitar, por campos, mares e siderações; podia me iluminar a iluminação; sublime, sublimar o sublimado. Depois, ajudou-me a arrefecer enquanto me refazia. E ainda me queimava… E ainda levitava…

Das chamas que por mim tinham passado, sobravam as cinzas do que outrora fora eu. Revelavam quem eu tinha sido sem nunca saber. Num sopro ardente abriram as minhas asas. Eram frágeis e ligeiras. Era o fogo que nelas habitava sob a máscara cinzenta dos restos de mim. E voei. Atingi as alturas do meu íntimo. E transformei-me. Tornei-me outro sem nunca deixar de ser eu. Não era alquimia. Não era magia. Era apenas a transformação de mim em eu. Findo o voo, findo o pouso: não ouve mais canto em que meu canto pudesse repousar; não o canto que outrora cantei; não o repouso que sempre desposei. Meu pouso agora será sempre em mim; meu canto agora será sempre em mim. Qualquer parada em qualquer lugar será sempre pra me mostrar parado noutro lugar: lá que será sempre aqui, tão difícil de definir, quanto interferir… Agora canto, em qualquer canto, todo este espanto, que não passa de sã esperança.

Ainda sinto, por dentro, o calor na pele e a carícia da chama. Ainda me chama o canto que deixei num canto esquecido. Esqueci o que ardeu. Relembro o que fui eu. Mas já não sei do fogo que me consumiu. As asas que aqui me trouxeram apagaram-se numa baforada de vento frio, mas ainda me consomem. A esperança ainda me habita. Aninhou-se no leito das cinzas e renasce tal a Fénix que todos somos. Terei ainda a força de a segurar. Sem asas, à mítica ave de fogo estenderei uma mão, para que me eleve ainda aos confins do que soa no que sou.

E a pira ainda será meu âmago.

Alexandre Cimatti e Dulce Morais

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Uma resposta a Fogo – com Alexandre Cimatti

  1. mariel diz:

    Meu pouso será sempre em mim. Essa frase valeu o ingresso

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