A minha viagem

Arte: Marsha Heiken

A minha viagem

Vou cair. Estive preso lá no topo durante tanto tempo e agora vou cair ao solo e tornar-me outro, desfazer-me e perder-me.

Não me recordo do tempo em que nasci. Terei caído junto a outros como eu para me aglomerar no manto branco que pinta a montanha que foi o meu lar durante tanto tempo. Após o que me pareceu uma eternidade, derreti… sim! Esse terrível destino que nos é reservado quando o astro diurno projeta em nós o calor dos seus raios. Senti-me despedaçado, derrubado. Como se nunca mais voltasse a ser o que sou.

Fui aspirado. Evaporado através do espaço até me juntar novamente a outros como eu e mais uma vez reunir-me. E mais uma vez cair. E mais uma vez solidificar-me.

Agora caio ao solo e sei que vou perder-me. Sou o inverno. Sou o branco. Sou o frio. Sou a tinta. Sou a água. Sou o floco. Único e jamais repetido. Doce e jamais acariciado. Outros virão, mas nenhum será como eu. Outros cairão, mas nenhum terá o meu passado. Continuarão o ciclo frágil deste inverno que nos pertence, até que um dia o mundo não nos queira mais. Até que o calor vença e sejamos apenas água e nunca mais algodão frio que enfeita o inverno.

Dulce Morais

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