Papoilas

Por Dulce Morais

Por Dulce Morais

Papoilas

Vi papoilas ao longe, daquelas que nos preenchem o olhar de magia e o coração de alegria.
Eram amigas e companheiros que sabiam ver além do horizonte. Eram anjos que acolhiam o sol como pétalas oferecidas à luz.

Ilha sensível
Sabor a alvorada
Amável sentir

Calor em versos
Lidos em sintonia
Assim é ela
Única e bela

Saberei eu dizer
Uma palavra que seja
Sem sair da verdade
E com sinceridade
Tocar a alma pura
Elevada na amizade

Com o olhar puro
Repleto de tanto sentir
Irradia na alma
Sensível carícia

Delícia no sorriso
Amabilidade a cada instante
Nem cansaria ao escalar
Kilimanjaro ou Everest
Assim é a energia pura

Memória para sempre
Encaixada na vida
Num sopro voou
Aqui sempre ficará

Dulce Morais

Publicado em Uncategorized | Etiquetas , | Publicar um comentário

A minha viagem

Arte: Marsha Heiken

A minha viagem

Vou cair. Estive preso lá no topo durante tanto tempo e agora vou cair ao solo e tornar-me outro, desfazer-me e perder-me.

Não me recordo do tempo em que nasci. Terei caído junto a outros como eu para me aglomerar no manto branco que pinta a montanha que foi o meu lar durante tanto tempo. Após o que me pareceu uma eternidade, derreti… sim! Esse terrível destino que nos é reservado quando o astro diurno projeta em nós o calor dos seus raios. Senti-me despedaçado, derrubado. Como se nunca mais voltasse a ser o que sou.

Fui aspirado. Evaporado através do espaço até me juntar novamente a outros como eu e mais uma vez reunir-me. E mais uma vez cair. E mais uma vez solidificar-me.

Agora caio ao solo e sei que vou perder-me. Sou o inverno. Sou o branco. Sou o frio. Sou a tinta. Sou a água. Sou o floco. Único e jamais repetido. Doce e jamais acariciado. Outros virão, mas nenhum será como eu. Outros cairão, mas nenhum terá o meu passado. Continuarão o ciclo frágil deste inverno que nos pertence, até que um dia o mundo não nos queira mais. Até que o calor vença e sejamos apenas água e nunca mais algodão frio que enfeita o inverno.

Dulce Morais

Publicado em Uncategorized | Etiquetas | Publicar um comentário

Madrugada

Madrugada

Quando o Sol ainda hesita, entre aquecer a manhã e cegar a paisagem, paira no ar a névoa noturna depositando nas pétalas gotas que mais tarde se tornarão orvalho.

A bruma penetra cada poro da pele de quem se atreve a essa hora a percorrer o mundo. Preenche o peito daquele sentimento que faz compreender que nada somos. Um traço de eternidade sentido num sopro. Um rasto de ausência à beira do dia que talvez não veremos.

A humidade racha a alma e prolonga a dor do pesadelo nas reminiscências do sonho ainda por terminar. Nessa hora incerta entre a noite e o seu fim, vem acender-se a luz da maresia na lâmina afiada.

Arte: Dawn Fiodor Aleksandrovich Vasilyev http://www.allartclassic.com/pictures.php

Arte: Dawn
Fiodor Aleksandrovich Vasilyev
http://www.allartclassic.com/pictures.php

É apenas a madrugada.
Um rasto de noite num dia ainda por nascer.
É apenas o despertar.
Um dia anunciado num apelo a tudo recomeçar.

Dulce Morais

Publicado em Uncategorized | Etiquetas | Publicar um comentário

Abandono

Imagem da Web Autor desconhecido

Imagem da Web
Autor desconhecido

 

Abandono

Avista-se o círculo das ondas no centro do lago,
fruto da caída do corpo nas águas frias e fundas.
Várias tentativas houvera
de largar a pedra
com pés assentes na terra.
Mas foi do barco,
levado ao centro do manto líquido
por falsos remos manejados,
que foi escolhida a queda.

Um riso sarcástico se prende na garganta,
como quem prefere o desprezo
no lugar onde antes dizia amar.
Não há meia medida
no abandono silencioso.
Resta a ferida aberta
do que foi outrora delicioso.

Apagam-se as ondas no centro do lago.
O círculo fecha-se para sempre
nas profundezas da memória.
Restam os remos na embarcação
e a força de ainda avançar
para gravar novas pegadas
nas areias das dunas desertas.

Dulce Morais

Publicado em Uncategorized | Etiquetas | Publicar um comentário

Os amantes

Arte: Carlos Saramago

Arte: Carlos Saramago

Os amantes

Livres foram
e livres aceitaram
o olhar dos que não o eram.

Felizes foram,
e talvez o sejam
para os tempos infindos.

Enfrentam o desprezo
dos que não sabem.
Acolhem o preconceito
como quem se resigna ao inevitável.

É o amor que os une
com laços indefectíveis.
É a certeza que os constrói
sobre a rocha eterna da sinceridade.

Dulce Morais

Publicado em Uncategorized | Etiquetas | Publicar um comentário

No caderno

Arte: Park Hang Ryul

Arte: Park Hang Ryul

No caderno

Nas tuas folhas, escrevi as palavras que me invadiram.
No papel, deixei cair o sentimento e o tormento.
E disse ainda o que nunca pensei,
Sonhei o que nunca viverei… e calei…

Esta mania que temos nós,
de querer definir em palavras
o que só pode saber-se
no silêncio de uma alma….

Mas nada disso impede que,
quando aqui te escrevo,
nada nem ninguém altera
o que um dia de ti recebi.

Dulce Morais

Publicado em Uncategorized | Etiquetas | Publicar um comentário